sexta-feira, 20 de setembro de 2013

"GRATIDÃO"

"Chico levantara-se cedo e, ao sair de charrete para a fazenda, encontra-se no caminho com o Flaviano que lhe diz: - Sabe quem morreu?
- Não!...
- O Juca, seu ex-patrão. Morreu na miséria, Chico,
sem ter nem o que comer...
- Coitado! E Chico tira do bolso o lenço e enxuga os olhos.
- A que horas é o enterro?
- Creio que vão enterrá-lo a qualquer hora, como indigente,
no caixão da Prefeitura, isto é, no rabecão...
Chico medita, emocionado, e pede: - Flaviano, faça-me um favor:
vá a casa onde ele desencarnou e peça para esperarem um pouco.
Vou ver se lhe arranjo um caixão, mesmo barato.
Flaviano despede-se e parte.
Chico desce da charrete. Manda um recado para seu chefe.
Recorda seu ex-patrão, figura humilde de bom servidor, que tanto
bem lhe fizera. E ali mesmo, no caminho, envia uma prece a Jesus:
"Senhor, trata-se do meu ex-patrão, a quem tanto devo; que me socorreu nos momentos mais angustiosos, que me deu emprego com o qual socorri minha família; que tanto sofreu por minha causa.
Que eu lhe pague, em parte, a gratidão que lhe devo.
Ajude-me, Senhor".
E, tirando o chapéu da cabeça e virando-o de copa para baixo,
à guisa de sacola, foi bater de porta em porta, pedindo uma
esmola para comprar um caixão para enterrar o extinto amigo.
Daí a pouco, toda Pedro Leopoldo sabia do sucedido e estava perplexa, senão comovida com o ato do Chico.
Seu pai soube e veio ao seu encontro,
tentando demovê-lo daquele peditório...
- Não, meu pai, não posso deixar de pagar tão grande dívida
a quem tanto colaborou conosco.
Um pobre cego, muito conhecido em Pedro Leopoldo, é inteirado
da nobre ação do Chico, a quem estima. Esbarra com ele:
- Por que tanta pressa, Chico?
- Meu Nego, estou pedindo esmolas para enterrar meu ex-patrão.
- Seu Juca!? Já soube. Coitado, tão bom! Espere aí, Chico. Tenho aqui algum dinheiro que me deram de esmolas ontem e hoje.
E despejou no chapéu do Chico tudo o que havia arrecadado...
Chico olhou-lhe os olhos mortos e sem luz.
Viu-os cheios de lágrimas. Comoveu-se mais.
- Obrigado, meu Nego! Que Jesus lhe pague o sacrifício.
Comprou, com o dinheiro esmolado, o caixão.
Providenciou o enterro. Acompanhou-o até o cemitério.
E, já tarde, regressou à casa. Tinha vivido um grande dia.
Sentou-se à entrada da porta. Lá dentro,
os irmãos e o pai observam-no comovidos.
Em prece muda, agradeceu a Jesus.
Emmanuel lhe aparece e lhe sorri. O sorriso do seu bondoso
guia lhe diz tudo. Chico o entende.
Ganhara o dia, pagara uma dívida e dera de si um testemunho
de humildade, de gratidão e de amor ao Divino Mestre."

("Lindos Casos de Chico Xavier", Ramiro Gama)

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