Mostrar mensagens com a etiqueta diversidade dos carismas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta diversidade dos carismas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de setembro de 2017

"PASSIVIDADE"



"No caso do centro, no qual a moça tentava integrar-se para
participar das tarefas coletivas ali desenvolvidas, havia um rígido
padrão de comportamento mediúnico. Nada da elasticidade
recomendada por Boddington e que constitui um dos próprios
ingredientes do fenômeno mediúnico em si, de vez que cada
médium tem suas peculiaridades, precisamente por ser uma personalidade autônoma. Sem nenhuma experiência de trabalho
em conjunto, a nossa jovem entrou assim para um grupo no qual
predominavam muitas ‘regras’ inibidoras.


Nas sessões ditas de desobsessão, exigia o padrão ali adotado
que ela ‘desse passividade’ exatamente como os demais médiuns
treinados pela casa: imóvel, olhos fechados, mãos juntas e abandonadas tranquilamente sobre a mesa. Nenhum gesto era permitido durante a manifestação, nenhuma palavra em tom mais
alto, nenhuma forma de movimentação do corpo, dos membros
ou da cabeça.


Acontece que a mediunidade da nossa jovem tinha seus mé­
todos operacionais próprios, o que vale dizer: eram diferentes
dos que ah se praticavam. Embora disciplinada, sem manifesta­
ções ruidosas ou palavras descontroladas, ela gesticulava moderadamente e mantinha os olhos abertos, dando enfim expressão
e naturalidade às suas manifestações.


Agia acertadamente a meu ver, permitindo que o espírito manifestante
pudesse expressar-se convenientemente, dizer enfim
ao que veio e expor sua situação a fim de que pudesse ser atendido
ou, pelo menos, compreendido nos seus propósitos. Se ele vinha
indignado por alguma razão - e isto é quase que a norma em trabalhos
dessa natureza -, como obrigá-lo a falar serenamente, com
a voz educada, em tom frio e controlado ? Somos nós, encarnados,
capazes de tal proeza? Não elevamos a voz e mudamos de tom
nos momentos de irritação e impaciência? Como exigir procedimento
diferente do manifestante e do médium? Afinal de contas,
se a manifestação ficar contida na rigidez de tais' parâmetros, acaba
inibida e se torna inexpressiva, quando não inautêntica, de tão
deformada. Em tais situações, é como se o médium ficasse na posição
de mero assistente de uma cena de exaltação e a descrevesse
friamente, em voz monótona e emocionalmente distante dos
problemas que lhe são trazidos. E preciso considerar, no entanto,
que ali está uma pessoa angustiada por pressões íntimas das mais
graves e aflitivas, muitas vezes em real estado de desespero, que
vem em busca de socorro para seus problemas, ainda que não o
admita conscientemente. Não é uma vaga e despersonalizada entidade,
uma simples abstração, mas um espírito que se manifesta.


É um ser humano, vivo, sofrido, desarvorado, que está precisando
falar com alguém que o ouça, que sinta seu problema pessoal, que
o ajude a sair da crise em que mergulhou, que partilhe com ele
suas dores, que lhe proporcione, por alguns momentos, o abrigo
de um coração fraterno. O médium frio e com todos os seus freios
aplicados à manifestação não consegue transmitir a angústia que ,<
vai naquela alma. E um bloco de gelo através do qual não circulam
as emoções do manifestante, a pungência de seu apelo, a ânsia
que ele experimenta em busca de amor e compreensão. Nenhum
problema é maior, naquele instante, para o manifestante
do que o seu, nenhuma dor mais aguda do que a sua. Dizíamos há
pouco que a médium permitia que o manifestante se expressasse
a seu modo, mas, a rigor, ela simplesmente não sabia trabalhar de
outra maneira. A entidade parecia assumir seus comandos mentais
e utilizar-se, com naturalidade, de seu corpo físico. Se havia
alguma ação inibidora ou controladora da parte da médium, era
em nível de consciência extrafísica. E, certamente, era isso que se
dava, pois nunca houve qualquer distúrbio ou excesso nas manifestações que ocorriam por sua intermediação.


No entanto, o dirigente exigia que o médium transmitisse
tudo na rígida postura de um robô, que leva a palavra de um lado
para outro, mas não admite que se filtrem, também, as emoções
que elas contêm e que as impulsionam.

Quando isso ocorre, o que chega ao dirigente ou doutrinador
não é aquilo que partiu do manifestante e, sim, aversão pasteurizada
e impessoal que o médium lhe transmitiu, como se fosse nm
mero  telefone. O espírito nem consegue sentir, no ser
que utiliza como instrumento, um pouco de emparia, de solidariedade,
de fraternidade, de emoção participante, de calor humano.

É nisso que resulta a excessiva e tão decantada passividade...
E para esse tipo de passividade nossa jovem não estava preparada.
Daí os problemas com os métodos da casa e, obviamente,
com os dirigentes do trabalho."

"Diversidade dos Carismas", Hermínio Miranda

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"PRIMEIROS PASSOS"



"Não alcançara, é certo, nenhum dos seus propósitos iniciais,
mas, ao cabo de um dia inteiro de expectativa e obstinação, conseguira, pelo menos, sair dali com um tímido raio de esperança
materializado na carta que, como chave mágica, deveria abrir
uma porta e pela qual ela esperava penetrar naquele universo diferente
e um tanto secreto, onde suas faculdades seriam, afinal,
cultivadas e postas a serviço de uma causa nobre.


Na segunda-feira seguinte, à noitinha, partiu em busca do endereço
indicado. Entregou a carta ao seu destinatário, que a leu
e mandou-a sentar-se e assistir aos trabalhos da noite, que aliás
não eram de natureza mediúnica, mas uma palestra a ser proferida
por um homem que ela conhecia apenas de nome.


Muitos problemas teria ali, na difícil fase de adaptação que se
seguiria, mas isto ainda era futuro, impenetrável até mesmo às
suas faculdades premonitórias.


Aquela noite, contudo, ficou marcada para sempre em sua
memória por um verdadeiro sismo emocional, que a colocaria
em estado de intensa agitação íntima e lhe deixaria uma sequela
de muitos conflitos. E que, no orador da noite, ela identificou a
figura central de suas vidências e sonhos, durante os quais çenasj
emocionantes eram revividas com toda a intensa carga emocional
que nelas se depositara. Era ele o homem amado do passado,
companheiro de muitas vidas, de felicidade, algumas, de frustrações
e de tormentos, outras. Naquela altura, porém, estava de
partida para os Estados Unidos, para onde seguiu, pouco depois,
em viagem de estudos. Somente ao retornar, meses depois, voltou
a procurar o centro que lhe fora indicado sob circunstâncias tão
complexas para ser orientada no trabalho que esperava realizar.
Longe de ter chegado ao termo das suas dificuldades - disto
ela sabería mais tarde -, elas apenas começavam. Se lhe fora exigida
uma cota tão elevada de tenacidade e decisão apenas para
que lhe indicassem um caminho, seria agora necessário acrescentar
paciência e até humilde resignação à sua obstinação em
servir da maneira adequada à causa que desejava adotar.

É certo que o centro, ao qual fora encaminhada, dispunha de
boa estrutura administrativa, desempenhava importantes tarefas
de natureza social, doutrinária e mediúnica. E como era de
se esperar, desenvolvera severos padrões de disciplina e de metodologia para cada setor de atividade, o que é perfeitamente
compreensível e até desejável. Como realizar um trabalho sério
numa comunidade movimentada e bem frequentada sem regimentos
adequados e normas apropriadas de procedimento?

Cada um tem de saber o que deve fazer e precisa dar conta da
parte que lhe toca no conjunto.

O problema é que a tarefa mediúnica tem peculiaridades que
não se deixam enquadrar na rigidez de certos esquemas inibidores.
Claro que seu exercício precisa obedecer a uma disciplina
operacional suficientemente severa para coibir desvios e ficar ao
abrigo de influências negativas próprias do médium ou provocadas
por terceiros. Mesmo nos limites de tal rigidez, é necessário
deixar algum espaço para que cada médium possa movimentar
seus recursos e faculdades pessoais, bem como expressar, de maneira
adequada, a personalidade do eventual comunicante desencarnado.
Sob esse aspecto, quase se poderia dizer que não há
mediunidade, e sim médiuns.

A mediunidade é a expressão da sensibilidade do médium,
seu instrumento de trabalho, e, como faculdade humana, guarda
características pessoais, como o modo de caminhar, o tom da
voz, a impressão digital, o feitio e ordenação da letra, o temperamento
de cada um. Precisa ser disciplinada sem ser deformada,
respeitando-se o contexto da personalidade humana no qual ela
ocorre. É desastroso tentar impor condições inaceitáveis às suas
manifestações.

Esse equívoco de abordagem ocorre com grande parte dos
cientistas que em suas pesquisas procuram impor à fenomenologia
psíquica em geral, e à mediunidade em particular, padrões
e metodologia de trabalho totalmente inadequados, que na
maioria das vezes frustram o processo de observação e produzem
resultados insatisfatórios. Quem se dispõe a trabalhar com
fenômenos produzidos pelo psiquismo humano deve se preparar
para respeitar as regras do jogo, decidindo, antes, que tipo de
metodologia é aplicável ao estudo que pretende realizar. Se não
existe, precisará criá-la; e antes de experimentar os fenômenos
em si, testar a própria metodologia desenvolvida para a pesquisa.
Isso porque se torna imperioso deixar espaço e condições para
que o fenômeno se produza tão espontaneamente quanto possí­
vel, ainda que sob condições de controle observacional. O cientista,
tanto quanto o dirigente de trabalhos mediúnicos, deve ser
um bom observador, dotado de espírito crítico alertado, e ter o
bom-senso de interferir o mínimo possível - apenas o suficiente
para ordenar a sequência de tarefas e coordenar as atividades
que se desenrolam sob suas vistas. Deve, portanto, ser um observador
participante, certo, mas nunca inibidor., pois ele está all
precisamente para fazer com que as coisas aconteçam e não para _
impedi-las ou forçá-las a ocorrerem da maneira exata pela qual
ele entende que devam ocorrer. „

Não é muito diferente desta a maneira de pensar de André
Luiz, expressa em "Evolução em dois mundos", (Xavier, Francisco
C./Luiz, André 1973) onde se lê:
"Eminentes fisiologistas e pesquisadores de laboratório
procuraram fixar mediunidades e médiuns a nomenclaturas
e conceitos de ciência metapsíquica; entretanto o problema,
como todos os problemas humanos, é mais profundo, porque
a mediunidade jaz adstrita à própria vida, não existindo, por
isso mesmo, dois médiuns iguais, não obstante a semelhança no
campo das impressões..." (Os destaques são meus)

Logo a seguir, adverte André Luiz que até mesmo ‘espiritualistas
distintos’, que se julgam autorizados a apelar para os riscos
da mediunidade - a fim de impedir-lhe a eclosão e, por conseguinte,
os serviços que pode prestar - estão sendo influenciados
por via mediúnica, traduzindo “interpretações particulares de
inteligências desencarnadas que os assistem”. Ou seja, estão atuando
como inconscientes joguetes de vontades estranhas à sua.


Os médiuns são sensíveis não apenas aos seres desencarnados,
mas também às pressões e sentimentos, mesmo não expressos,
das pessoas encarnadas que os cercam durante o trabalho. Harry
Boddington (The university o f spiritualism), ao qual estaremos
recorrendo com alguma frequência neste estudo, acha até que os
médiuns são mais sensíveis às pressões dos encarnados do que às
dos desencarnados.


“Extrema elasticidade” - escreve o competente autor inglês
- “deve ser adotada na aplicação de todas as teorias relativas aos
fenômenos psíquicos.”


Isto não quer dizer, obviamente, que o médium possa e deva fazer
ou permitir que se faça com ele tudo o que vier à sua cabeça ou
à do manifestante, mas é preciso garantir condição suficiente para
que o fenômeno ocorra dentro da dinâmica que lhe é própria.


Esse princípio é válido para qualquer grupamento de pessoas,
até mesmo quando reunidas para finalidades meramente sociais
ou de trabalho material, estudo, debates, ou o que seja. Pessoas
agressivas, amarguradas, mal humoradas, pouco educadas causam
transtornos em qualquer reunião, o que não ocorre quando
os componentes de um grupo se harmonizam, 
respeitam-se mutuamente e debatem os problemas com serenidade e bom-senso, ainda que divergindo neste ou naquele aspecto."

"Diversidade dos Carismas", Hermínio Miranda

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"O MÉDIUM: ECLOSÃO, DESENVOLVIMENTO E EXERCÍCIO DAS SUAS FACULDADES" - "Longa e obstinada vigília"


"1. Longa e obstinada vigília"


"Não dava mais para esperar. Sucediam-se as perplexidades e a
moça estava ficando confusa no meio de todos aqueles estranhos
fenômenos que ocorriam com ela e à sua volta. Sabia, agora, que
o espiritismo tinha um nome adequado para isso: mediunidade.
Ela era, portanto, uma pessoa dotada de faculdades mediúnicas.
Vira isso em um livro básico e elementar que lera de um só fôlego.
E daí? Que caminho escolher entre as diversas alternativas?
A quem recorrer? Com quem se esclarecer e se orientar? Como
aprender a se utilizar corretamente daquele potencial que não
conseguia entender ou controlar?

Uma crônica de jornal, que lera ainda há pouco, dizia maravilhas
de um grupo-padrão mediúnico que funcionava sob responsabilidade
de respeitável instituição. Estava ali a sua oportunidade,
pensou. Recortou a crônica, disposta a falar pessoalmente
com o seu autor. A providência inicial, portanto, consistia em
localizá-lo. Ligou para a instituição, tão animada pela esperança
quanto ingênua e inexperiente. A pergunta foi direta e objetiva:
o que era necessário fazer para qualificar-se como frequentadora
do grupo? A resposta foi educada, mas firme: o grupo era fechado
e seleto. Não admitia ninguém, a não ser por escolha e convite, 
mediante critérios inquestionáveis. Além disso, informou a
voz ao telefone, o grupo era interditado às mulheres. Só homens
poderiam frequentá-lo.

No pouco que lera sobre a doutrina espírita, nada encontrara
que distinguisse o trabalho dos que se encarnam como homens
daqueles que optam pela encarnação feminina; Aliás, o termo
espírita, escolhido para identificar o adepto do espiritismo, a
partir de termo semelhante na língua francesa {spirite), é o que
se chama um adjetivo de duplo gênero, ou seja, tanto serve para
emprego feminino quanto masculino. Diz-se que uma senhora é
espírita da mesma forma que um homem é espírita.
O substantivo espírito, por sua vez, não tem feminino. Seja
homem ou mulher, o termo que identifica o ser é o mesmo - espírito.
Não existe espírito para seres masculinos e espírita para seres
femininos, mesmo porque, segundo consta nas obras básicas.
o espírito não têm sexo.
Entendiam os dirigentes do grupo, ou a tradição ali adotada,
não se sabe por que razões, que a bisonha postulante era uma espírita
(feminino) e não devia frequentar reuniões abertas apenas
aos espíritas masculinos.
Enfim, não lhe cabia discutir o critério. E nem adiantaria fazê-
lo. Deviam ter suas razões para assim proceder. O outro obstá­culo 
que interditava sua admissão no grupo era compreensível,
embora, em sua inexperiência, ela não o tenha considerado impeditivo.

O trabalho mediúnico sério exige, de fato, ambientes
reservados, severos padrões de disciplina, afinidades entre seus
diversos membros, assiduidade e inúmeros outros componentes,
como tivemos oportunidade de estudar em "Diálogo com as sombras",
 no qual o assunto é tratado de maneira específica. 

Em suma: a moça não podia ser admitida no grupo-padrão
por duas indiscutíveis razões. Restava-lhe apelar para a última
alternativa: como falar com o autor da crônica que tantas esperanças
suscitara em seu espírito ?

Isto era mais fácil. (Ou não era?) Ele costumava frequentar as
reuniões de caráter administrativo, aos sábados. A que horas?
Tinha por hábito chegar mais cedo, bem antes da hora marcada
para a reunião, programada para o início da tarde.

Eis porque naquele sábado, pela manhã, a moça partiu do
bairro distante rumo à instituição. Tinha de falar pessoalmente
com aquela pessoa que encarnava, agora, suas esperanças de encontrar
um rumo que lhe permitisse ordenar o verdadeiro emaranhado
de dificuldades em que se metera em consequência de
toda a fenomenologia que a inquietava e começava a assustá-la.
Chegou às dez horas da manhã, subiu as escadas, apresentouse,
fez perguntas, expôs suas intenções e pretensões. E ficou ali,
sentada, aguardando o cronista salvador que, infelizmente, não
compareceu à reunião do dia. Voltou a fazer perguntas. Queria
saber, agora, a quem deveria dirigir-se para obter as informações
de que tanto necessitava para dar um rumo certo à sua vida. Sugeriram-lhe
que falasse com o dirigente da instituição.

Nova espera. A essa altura eram duas horas da tarde.

Finalmente chegou o dirigente, acompanhado de um grupo.
Ela se levantou e pediu ao informante de sempre para indicar
a pessoa, e abordou-a. Nova decepção. Lamentavelmente, disse
ele, não poderia atendê-la no momento, pois já estava atrasado
para a reunião. Concordaria em falar com ela depois de terminada
a reunião? Isto sim era possível, arrematou ele, subindo as
escadas que levavam, provavelmente, à sala de reuniões.


Havia agora duas necessidades pessoais a atender: a fome espiritual
e a material. Uma podia esperar um pouco mais; a outra,
não. A moça desceu, foi à rua, fez um lanche e voltou à sua
vigília, disposta a não arredar pé dali sem ter falado com alguém
acerca de seus anseios espirituais.


A reunião só terminou às seis horas. O dirigente não escondeu
sua surpresa ao encontrar a moça ainda ali, esperando pacientemente.
Imaginara, portanto, que sua atitude inicial a levaria ao
desencorajamento. Levou-a para uma sala, onde sentaram-se, e
ela expôs suas aspirações. Ele escreveu uma pequena apresenta­
ção dirigida ao presidente de um centro espírita de sua confiança.
A essa altura, já anoitecia e a moça precisava voltar para casa."

"Diversidade dos Carismas", Hermínio Miranda

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"DIVERSIDADE DOS CARISMAS" - Introdução

"Três opções básicas se colocam diante daquele que se propõe a escrever um estudo como este acerca da mediunidade:

1. a abordagem predominantemente teórica, como a adotada por Allan Kardec em "O livro dos médiuns", 

2. o enfoque experimental caracterizado como depoimento pessoal, do qual dispomos de bons exemplos em "Recordações da mediunidade" e "Devassando o invisível", de Yvonne A. Pereira; e 

3. o tratamento integrado de ambos os aspectos, acoplando teoria e prática, segundo podemos observar em "Recherches sur la médiumnité" e "Les apparitions matérialisées des vivants et des morts", de Gabriel Delanne, ou, mais recentemente, nas obras da série André Luiz que tratam especificamente do problema, como "Mecanismos da mediunidade" e "Nos domínios da mediunidade". 

Cada uma dessas opções tem seus méritos e objetivos pró­ prios. Para este livro adotamos a terceira delas: um tipo de modelo que se revelara satisfatório em Diálogo com as sombras e em A memória e o tempo, onde aspectos teóricos ficaram embutidos em narrativas com características de depoimento pessoal. 

Com esse plano em mente, procuramos montar este trabalho a partir de três módulos distintos, ainda que inseparáveis em suas implicações e na interação de suas motivações. O primeiro deles, destinado a documentar problemas básicos que o médium em potencial, ou já em plena atividade, costuma enfrentar; o segundo, para estudar mais atentamente aspectos particulares do animismo; e, finalmente, o terceiro, no qual tomamos para aná­ lise a mediunidade em si mesma. 

A distribuição dos fenômenos psíquicos em duas categorias - animismo e mediunidade - é de mera conveniência da metodologia expositiva, que não lhe tira a condição de classificação arbitrária. Isso porque não há entre as duas categorias absoluta nitidez de fronteiras. Ainda que seja, teoricamente, mais frequente o fenômeno anímico puro, isto é, sem interferências de entidades desencarnadas, suspeitamos, inferimos ou sabemos que, em larga faixa percentual de eventos, ocorre ou pode ocorrer participação de seres desencarnados. 

Já o fenômeno mediúnico não acontece sem o componente anímico, que é da essência do processo. Para suas manifestações, os espíritos precisam de certa espécie e quantidade de energia de que somente o ser encarnado dispõe. A comunicação entre as duas faces da vida, ou seja, entre espíritos (desencarnados) e seres humanos (encarnados), transita por uma ponte psíquica que tem de apoiar uma cabeceira na margem de lá do abismo e a outra no lado de cá, onde vivemos nós. 

Insistimos, pois, em declarar que a classificação é simples conveniência metodológica e não deve ser tomada com rigidez exclusivista. 

Quanto ao mais, o enfoque fundamental do livro consiste em estudar as faculdades do espírito humano em ação, tanto quanto possível, da ótica do próprio sensitivo, de vez que ele é o laboratório vivo no qual se processam os fenômenos sob exame. 

Estaria equivocada, não obstante, a conclusão de que o livro se destina somente aos médiuns em geral, aos dirigentes e aos que militam em centros e grupos espíritas como participantes de trabalhos mediúnicos. Ao contrário, o tema é de vital importância para um espectro de pessoas muito mais amplo do que poderiamos suspeitar à primeira vista. E que os fenômenos da natureza anímica e mediúnica não ocorrem apenas a horas certas, com determinadas pessoas, nos círculos fechados do espiritismo  prático, mas a todo momento, por toda parte, com todo mundo. Não estarei exagerando ao dizer que acontecem com maior frequência na rua, no lar, na escola, no local de trabalho, do que propriamente na intimidade dos núcleos espíritas. A mediunidade não é propriedade do espiritismo e, sim, como fenômeno natural, um dos múltiplos aspectos da própria vida. 

Poucos estudos, em verdade, oferecem tão denso conteúdo humano como o da mediunidade. Quer estejamos de um lado ou de outro da vida, como encarnados ou desencarnados, ela é sempre o instrumento de intercâmbio instalado estrategicamente entre os dois planos da existência. 

Alto preço em angústias, decepções e desequilíbrios emocionais e mentais, perfeitamente evitáveis, é pago a cada instante em consequência da desoladora ignorância em torno da problemática da mediunidade fora do contexto doutrinário do espiritismo. E não poucos desajustes sérios ocorrem no próprio meio espírita, no qual o conhecimento inadequado, insuficiente ou distorcido acaba resultando em problema mais grave do que a ignorância que busca informar-se de maneira correta. 

Seja como for, porém, não há como negar que o maior interessado no estudo da mediunidade é o próprio médium. Daí o esforço em colocar-me, tanto quanto possível, junto dele. Pretendí ver com os olhos dele, sentir com sua sensibilidade, aprender com os fenômenos que lhe ocorrem, descobrir com ele os caminhos percorridos e a percorrer... E a única maneira válida, no meu entender, de preparar-se alguém para ajudar, com observações práticas e teóricas, outros médiuns em potencial na difícil escalada, visando ao exercício adequado de suas faculdades. 

A mediunidade não é doença, nem indício de desajuste mental ou emocional - é uma afinação especial de sensibilidade. Como na música, somente funciona de maneira satisfatória o instrumento que não apresenta rachaduras, cordas arrebentadas, desafinadas ou qualidade duvidosa. 

Não é nada fácil à pessoa que descobre em si os primeiros sinais de mediunidade encontrar acesso ao território onde suas faculdades possam ser entendidas, identificadas, treinadas e, finalmente, praticadas com proveito para todos. O médium precisa de recolhimento para o exercício de suas atividades, mas não deve ser um trabalhador solitário. Ele necessita de todo um sistema de apoio logístico, de uma estrutura que lhe proporcione as condições mínimas que seu trabalho exige. 

Peça decisiva nesse contexto é o grupo incumbido de trabalhar mais diretamente junto dele. Exige-se dessas pessoas não apenas um bom preparo doutrinário e experiência, como outros atributos, de maturidade e sensibilidade, que lhes permitam posicionar-se como amigos e companheiros de trabalho e não como chefes, mestres, gurus ou proprietários do médium. E que não se deixem fascinar pela eventual espetaculosidade dos fenômenos ou pelo teor de ‘revelações’ de autenticidade duvidosa, ao gosto de alguns companheiros desencarnados. Isto quer dizer que não apenas o instrumento tem de estar afinado e em bom estado, mas harmonicamente integrado na orquestra em que atua. 

Sou grato à médium cujo nome escondi sob o pseudônimo de Regina, pelo rico material que generosamente colocou à minha disposição, e pela sua insistência comigo em escrever mais este livro que, pensava eu, não estaria na minha programação (Estava!). Sem o toque pessoal que suas vivências emprestaram ao nosso estudo, o livro teria recaído facilmente na aridez da teorização especulativa. 

Tal gratidão estende-se aos inúmeros autores consultados no processo de concepção e elaboração deste trabalho, a partir de O livro dos médiuns, de Allan Kardec, generosa e fecunda matriz de tudo quanto se tem feito no estudo criterioso das complexidades do tema. Constam da bibliografia aqueles que mais contribuíram para reduzir espaços na minha ignorância, iluminando e ampliando faixas no território explorado.  

Devo agradecer também aos autores dos quais me senti impelido a discordar, nesse ou naquele aspecto. Eles costumam ter importante contribuição a oferecer, de vez que até mesmo a divergência pode ser criativa, no sentido de que tem algo a ensinar-nos quanto à melhor definição de conceitos que, de outra forma, talvez permanecessem vagos ou ignorados por nós. 

Cabe, finalmente, uma palavra de gratidão aos amigos espirituais que, no seu modo discreto, silencioso, amoroso e competente, sempre acompanham todo o difícil processo de elaboração dos meus (meus?) escritos, desde a germinação da ideia original até o aparecimento do livro nos catálogos, vitrines, estantes e, finalmente, em suas mãos, leitor, pois este é o destino deles. 

Em "Diálogo com as sombras", examinamos o problema da doutrinação; em "A memória e o tempo", abordamos o da regressão de memória; em "Diversidade dos carismas", o tema é a mediunidade. Não estarei recorrendo à falsa modéstia se confessar, humildemente, que somente percebi que havia escrito uma trilogia após contemplá-la pronta, na perspectiva que a objetividade então me concedeu. 

Se as observações e experiências contidas nestas páginas forem de utilidade a alguém, sentir-me-ei encorajado a me apresentar, um dia, aos meus queridos mentores como aquele obreiro - de que falou Paulo a Timóteo (II Timóteo 2,15) - que não “tem de que se envergonhar” do trabalho realizado. O leitor prestou atenção? O severo apóstolo dos gentios entende que já estaremos bem se nossa modesta obra, seja ela qual for, não nos causar vexames. Quanto ao orgulho, nem pensar... Afinal de contas, orgulhar-se de quê?"

 H.C.M . 
 
("Diversidade dos Carismas", Hermínio Miranda)

Observação: As citações de originais em língua estrangeira foram traduzidas pelo próprio autor.