"A assembléia familiar comentava a difícil situação dos Espíritos revoltados que se habituam ao azedume crônico por vasta fieira de encarnações sucessivas, quando João de Kotchana, experimentado instrutor de cristãos desencarnados, nas regiões da Bulgária, contou-nos, entre sensato e otimista:
- Temos nós antiga lenda que adaptarei ao nosso assunto para a devida meditação...
Dizem que Deus, quando começou a repartir os dons da vida, entre os primeiros homens dos primeiros grandes agrupamentos humanos constituídos na Terra, decretou fôsse concedido aos Bons o Poder Soberano.
Informados de que o Supremo Senhor estava fazendo concessões, os Corajosos acudiram apressados à Divina Presença, solicitando o quinhão que lhes seria adjudicado.
- Que desejais, filhos meus? – indagou o Eterno.
- Senhor, queremos o Poder Supremo.
- Essa atribuição – explicou o Todo-Misericordioso – já concedi aos Bons; eles unicamente conseguirão governar o reino dos corações, o território vivo do espírito, onde se exerce o poder verdadeiro.
- Ah! Senhor, e nós? Que será de nós, os que dispomos de suficiente ousadia para comandar os distritos da existência e transformá-los?
- Não posso revogar uma ordem que expedi – observou o Onipotente -, entretanto, se não vos posso confiar o Poder Soberano, concedo-vos um encargo dos mais importantes, a Autoridade. Ide em paz.
Espalhou-se a notícia e vieram os Intelectuais ao Trono Excelso.
O Todo-Poderoso inquiriu quanto ao propósito dos visitantes e a resposta não se fêz esperar:
- Senhor, aspiramos à posse do Poder Soberano.
- Impossível. Essa prerrogativa foi concedida ao Bons. Só eles lograrão renovar as outras criaturas em meu nome.
E porque os Intelectuais perguntassem respeitosamente com que recurso lhes seria lícito operar. Deus entregou-lhes o domínio da Ciência.
Veio, então, a vez dos Habilidosos. Com vasta representação, surgiram diante do Pai e, como fôssem questionados quanto ao que pretendiam, responderam veementemente:
- Senhor, suplicamos para nós o Poder Soberano.
O Todo-Bondoso relacionou a impossibilidade de atender, mas deu-lhes o Engenho.
Depois, acorreram os Imaginosos ao Sagrado Recinto e esclareceram que contavam para eles com a mesma cobiçada atribuição.
O Todo-Amoroso respondeu pela negativa afetuosa; no entanto, brindou-os com a luz da Arte.
Logo após, os Devotados chegaram ao Augusto Cenáculo e rogaram igualmente se lhes conferisse a faculdade do mando, e recolheram a mesma recusa, em termos de extremado carinho; contudo, o Todo-Misericordioso outorgou-lhes o talento bendito do Trabalho.
Em seguida, os Revoltados, que não procuravam senão defeitos e problemas transitórios na obra da Vida – os problemas e defeitos que Deus sanaria com o apoio do Tempo, de modo a não ferir os interesses dos filhos mais ignorantes e mais fracos - compareceram perante o Supremo Doador de Todas as Bênçãos e, em vista de se mostrarem com agressiva atitude, a voz do Pai se fêz mais doce ao perguntar-lhes:
- Que desejais, filhos meus?
Os Revoltados retrucaram duramente:
- Senhor, exigimos para nós o Poder Soberano.
- Isso pertence aos Bons – disse o Todo-Sábio -, pois somente aqueles que dispõem de suficiente abnegação para esquecer os agravos que se lhes façam, prosseguindo infatigáveis no cultivo do bem aos semelhantes, guardarão consigo o poder de governar os corações... No entanto, meus filhos, tenho outros dons para conceder-vos...
Antes, porém, que o Supremo Senhor terminasse, os ouvintes gritaram intempestivamente:
- Não aceitamos outra coisa que não seja o Poder soberano. Queremos dominar, dominar... Fora do poder, o resto é miséria...
O Onipotente fitou cada um dos circunstantes, tomado de compaixão, e declarou, sem alterar-se:
- Então, meus filhos, em todo o tempo que estiverdes na condição de Revoltados, tereis convosco a miséria...
E, desde essa ocasião, rematou Kotchana, todo espírito, enquanto rebelado, não tem para si mesmo senão o azedume da queixa e a penúria do coração.
Ouvi a lenda, retiro o ensinamento que me toca e ofereço a peça aos companheiros reencarnados na Terra, que porventura sejam ainda inutilmente revoltados quanto tenho sido e já não quero mais ser."
("Estante da Vida", Irmão X/Francisco Cândido Xavier)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
"APROVEITAMENTO"
“Medita estas coisas; ocupa-te nelas para que o
teu aproveitamento seja manifesto a todos.” — PAULO (I TIMÓTEO,
4:15)
"Geralmente, o primeiro impulso dos que ingressam na fé
constitui a preocupação de transformar compulsoriamente os
outros.
Semelhante propósito, às vezes, raia pela imprudência,
pela obsessão. O novo crente flagela quanto lhe ouvem os
argumentos calorosos, azorragando costumes, condenando ideias alheias e
violentando situações, esquecido de que a experiência da alma é laboriosa e
longa e de que há muitas esferas de serviço na casa de Nosso
Pai.
Aceitar a boa doutrina, demorar-lhe as fórmulas verbais
e estender-lhe os preceitos são tarefas importantes, mas aproveitá-la é
essencial.
Muitos companheiros apregoam ensinamentos valiosos,
todavia, no fundo, estão sempre inclinados a rudes conflitos, em face da menor
alfinetada no caminho da crença. Não toleram pequeninos aborrecimentos
domésticos e mantêm verdadeiro jogo de máscara em todas as
posições.
A palavra de Paulo, no entanto, é muito
clara.
A questão fundamental é de
aproveitamento.
Indubitável que a cultura doutrinária representa
conquista imprescindível ao seguro ministério do bem; contudo, é imperioso
reconhecer que se o coração do crente ambiciona a santificação de si mesmo, a
caminho das zonas superiores da vida, é indispensável se ocupe nas coisas
sagradas do espírito, não por vaidade, mas para que o seu justo aproveitamento
seja manifesto a todos."
(“Vinha de Luz”, Emmanuel/Francisco
Cândido Xavier)
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
"CARIDADE PARA COM OS ADVERSÁRIOS"
"No fundo, o adversário gratuito , que se converte
em perseguidor contumaz e sistemático, amargando tuas horas e anatematizando
teus esforços dirigidos para o bem, não deve receber tua reação
negativa.
Justo te precatares contra a irritação e a cólera, em
relação a ele.
Não poucas vezes sentirás a presença da revolta e dos
nervos em desalinho, face à constrição que te é infligida, convertendo-se em
duro acicate ao ódio ou pelo menos ao revide. Apesar disso, arma-te de paciência
e age com prudência.
O vendaval enrija as fibras do arvoredo, o fogo purifica
os metais, a drenagem liberta o lodo, o cinzel aprimora a pedra e a dor acrisola
o espírito.
Observado pela má vontade e contundido pela
impulsividade dos perseguidores será convidado, ao exercício da abnegação e da
humildade, preciosas virtudes mediante as quais resgatarás dívidas de outra
procedência, enquanto eles, a seu turno, despertarão para a responsabilidade
depois.
Porque te persigam, não é lícito te convertas em sicário
também.
Todos nos encontramos na Terra em exercício de
sublimação espiritual.
Embora te sintas arder nas provocações e sofrer pelas
injustiças impostas não te cumpre qualquer revide
infeliz.
Apazigua as paisagens íntimas e prossegue dedicado aos
misteres abraçados.
Enquanto te fiscalizem, acusem, duvidem de ti,
utilizarás mais a prudência e a temperança auferindo maior soma de
benefícios.
No fragor da perseguição, oferta a tua prece de gratidão
em favor dos que se converteram em inimigos gratuitos da tua paz, reservando-te
caridade para com eles.
Se insistires desculpando-os, constarás que, não
obstante, desconheçam, fazem-se teus mestres ignorados, graças a cuja permanente
antipatia ascenderás na direção do Grande Incompreendido da Humanidade que
prossegue até hoje esperando por todos nós."
(“Leis Morais da Vida”, Joanna de Ângelis/Divaldo
Pereira Franco)
domingo, 4 de janeiro de 2015
"O SONHO DE RAFAELA"
"Disse então Jesus estas palavras: – Graças te rendo, meu Pai, Senhor do Céu e
da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes, e por as
teres revelado aos pequeninos." (MATEUS, 11:25.)
"Em certo dia, durante os deveres assumidos com o exercício do aprendizado que me fora indispensável no mundo invisível, para desenvolvimento do meu progresso pessoal, necessitei visitar a Terra, onde sempre me fora dado observar tantas lágrimas crestando o coração do meu próximo. Desci em vôo lento, ao acaso... e planei, atraído, de certo, por afinidades especiais, sobre uma região pobre do Piemonte, nas encostas nevadas dos Apeninos. (1)
Era uma aldeia de pobres camponeses, que tiravam das entranhas do solo o sustento para os seus semelhantes, mais para estes do que para si próprios, pois esses meus irmãos, almas heróicas, geradas, como eu, da mesma Luz, eram resignados na sua pobreza e se conformavam com o mínimo que lhes era indispensável.
Um travo de tristeza anuviou a satisfação de que nos últimos tempos minhalma se alcandorava, à vista daquela aldeia onde os problemas se multiplicavam, sem soluções compensadoras. Lembrei-me então dos dias melancólicos da minha existência terrena, quando, palmilhando os gelos de minha terra natal, eu peregrinava por aqui, por ali e acolá à procura das dores alheias para que Deus, suavizando-as por meu intermédio, também a mim, permitisse a misericórdia da suavização das minhas próprias dores, que não foram poucas.
Entrei, agora, de palhoça em palhoça, visitei os camponeses, os operários, os cavouqueiros, os pescadores. E a desolação crescia em minha alma, porque verifiquei que o homem, tal como nos meus velhos tempos, antes de mais nada, conservava-se sofredor, e assim se conservava por ignorar o próprio destino imortal.
Mas... mais além, à beira de uma palhoça com vistas para a cordilheira, um grupo de mulheres conversava amistosamente. À frente, a sombra de um pinheiro tingia de penumbras o alpendre tosco da entrada, enfeitado de jasmins e trepadeiras, ao passo que tílias floridas bordavam de tonalidades suaves o terreno cultivado, a par de videiras tenras que tentavam frutificar.
Que diriam entre si aquelas pobres camponesas?...
Seu mundo era tão restrito, tão modestos os seus ideais, que não passavam do desejo da boa saúde dos maridos e do crescimento dos filhos, que bem cedo deveriam marchar para a lavoura, com o pai.
Aproximei-me :
Elas eram ruivas e brancas, de faces rosadas e frescas, como legítimas italianas, volumosas em suas saias berrantes e fartas, com alvos aventais e toucas típicas, que as tornavam graciosas. Sim, que diriam?...
Detive-me a ouvi-las, como outrora, durante meus passeios solitários, ao encontrar um e outro "mujik" (2), que vinham solicitar a ajuda que nunca lhes pude plenamente conceder. E uma lágrima deslizou de minha alma, a essa melancólica evocação.
Eis o que se passava:
– Sim, Senhora Rafaela, conta à nossa Gertrudes o que te sucedeu durante esta noite... para ver se ela deixará de também chorar a morte do seu pequerrucho, que lá vai dois anos se foi para o bom Deus, sem que ela, a mãe, o esqueça... Conta-lhe...
– Sim, Rafaela, não te faças rogada... Conta-nos novamente o teu lindo sonho...
E Rafaela contou às vizinhas, pela décima vez, naquela manhã de primavera, o sonho que tivera, tendo agora, porém, um ouvinte a mais, invisível, do qual nenhuma delas se apercebia:
– Lembra-te, Gertrudes, da minha Adda?... Morreu há seis meses, quando justamente completaria os três anos de idade... e lhe iam sair os últimos queixais... Era tão viva e tão levada, a minha filha...
– Pois sim, lembro-me!... Pois não fui eu que a amamentei por ti, naqueles primeiros dias, quando a febre do leite te fazia variar?... Era tão linda como o meu Giovanino, que também se foi... e sua irmã de leite...
– Lembra-te do que tenho chorado e lamentado durante seis meses, sem dar acordo de mim mesma, inconsolável pela ausência de minha Adda, sem ânimo para o campo, sem comer, sem dormir, já sem crença em Deus, que me levou?...
– Como não havia de me lembrar, ó Rafaela!... Então não sei que assim mesmo tens feito?... Pois assim mesmo não te tenho visto, há seis meses?...
– Pois, Gertrudes, esta noite sonhei – prosseguiu Rafaela –, sonhei que fui convidada para uma festa onde somente crianças deveriam divertir-se. Parece que a tal festa se realizaria pelos arredores do Céu, mais ou menos...
Então, fui.
Era um lugar florido e bonito, e as crianças ali dançavam e cantavam, alegrezinhas, entoando hinos, enquanto se arremessavam punhados de pétalas de rosas brilhantes como estrelas... Traziam coroas de flores luminosas às cabecinhas louras e asas luzentes como devem ser as dos anjos que cortejam a Santa Mãe de Nosso Senhor Menino...
Embevecida, eu as admirava, assistindo à festa com as mãos entrançadas, como se contemplasse anjos do próprio Paraíso...
Mas, de súbito, que pensas que eu vejo?...
Adda! A minha Addazinha!... Mas... triste, contundida e chorosa, asas molhadas, sem bastante brilho para também participar do folguedo dos anjos... porque encharcadas também as suas vestes, e como comparecendo ali clandestinamente, sem se poder apresentar como seria devido numa festa de tal importância.
– Que significa isto, minha filha? – perguntei-lhe eu, no cúmulo da estupefação. – Tu, tão triste, quando eras alegrezinha, assim molhada e transida de frio, como se te houveras afogado nas torrentes do nosso rio Pó... (3) Por que não te divertes com os outros anjos, tu que eras o anjinho do meu coração, a doce bênção de Nosso Pai em meu lar?...
– Não poderia, mãezinha!... – respondeu em lágrimas, que me amarguraram.
– E por que não poderias, filhinha?... Porventura o bom Deus não é complacente contigo?...
– O bom Deus é complacente comigo, sim, mãezinha... Mas é que, na Eternidade, existem leis disciplinares irrevogáveis...
– Francamente, não te entendo, minha filha! Se és um anjo... Não tiveste sequer tempo de pecar... Porque leis severas contigo?...
– Não vês, mamãe, como me encontro?... assim molhada, com minhas asas pesadas, minhas roupagens sombrias, desguarnecidas de fulgurâncias, como não convém aos anjos trazê-las?...
– Mas... por que estás assim, filhinha?... Que te aconteceu?... Dize tudo a tua mãezinha... Quem sabe poderei ajudar-te em alguma coisa?...
– Pois justamente és tu a culpada de tudo, mãezinha... Tanto choras e blasfemas contra Deus, por minha causa, que me prendes ao teu lado, pela compaixão que me inspiras com tua mágoa demasiada e o teu desespero... Tuas lágrimas molham minhas asas, sombreiam minhas vestes, que devem ser de luz... E neste estado não me será possível compartilhar das alegrias das outras crianças que habitam felizes moradas dos Céus, nem alçar vôos pelo Infinito, onde deverão residir aqueles que deixaram o mundo, para se tornarem ditosos...
Promete que não mais hás de chorar e lamentar assim e serei feliz como o são estes que aqui vês, porque poderei seguir, sem pesares, para o seio dAquele que criou leis que tu desconheces, mas que mesmo assim deverás acatar porque são justas e muito sábias... E um dia, mãezinha, aqui mesmo virás ter... para continuarmos a felicidade momentaneamente interrompida...
– Ora, minha filha querida! – respondi-lhe eu, sorridente e comovida – Deus seja louvado! Prometo que me resignarei a essas leis, para não impedir teus vôos para o Céu com as minhas revoltas... Orarei ao bom Deus, isso sim! para que sejas feliz, podendo volitar em torno da Mãe Santíssima, como os demais anjos... e para que, quando possível, venhas até mim, tal como neste momento, a fim de me esclareceres e orientares sobre as coisas de Deus, que desconheço...
Quando Rafaela cessou de falar tinha os olhos secos. Mas as outras mulheres choravam, enquanto eu, invisível a todas elas, monologava com a alma enternecida:
– Oh, Deus dos simples e dos pequeninos! Eu louvo a tua misericórdia, que concede aos pobres e ignorantes do mundo revelações singelas, mas sublimes como esta, para que suas amarguras sejam acalentadas, revelações que, no entanto, encerram profunda essência filosófico-transcendental!...
Na Terra existe uma Ciência, revelada pelo Céu aos homens, que traduz a essência desta história tão repetida entre todas as mães que viram morrer os filhos pequeninos, Ciência capaz de explicá-la, desdobrando-a em ensinamentos de alta significação espiritual. Tu conheces tal Ciência, meu amigo! É a Doutrina que professas, a sacrossanta revelação daqueles que habitam o mundo dos Espíritos. Difunde-a, pois, com todas as forças do teu coração e do teu entendimento, para consolo do teu próximo, que precisa dela para se tornar menos desgraçado.
("Ressurreição e Vida", Leão Tolstoi/ Yvonne A. Pereira)
(1) Piemonte – Região da Itália. Situa-se entre os Alpes, o rio Tessino e os Apeninos. Capital: Turim. Apeninos – Cordilheira de montes calcáreos, que se estende ao longo da península Itálica. Altitude máxima, 2.921m. Grandes jazidas de mármore. (2) Mujik – Camponês. (3) Rio da Itália. Atravessa o Piemonte e a Lombardia.
"Em certo dia, durante os deveres assumidos com o exercício do aprendizado que me fora indispensável no mundo invisível, para desenvolvimento do meu progresso pessoal, necessitei visitar a Terra, onde sempre me fora dado observar tantas lágrimas crestando o coração do meu próximo. Desci em vôo lento, ao acaso... e planei, atraído, de certo, por afinidades especiais, sobre uma região pobre do Piemonte, nas encostas nevadas dos Apeninos. (1)
Era uma aldeia de pobres camponeses, que tiravam das entranhas do solo o sustento para os seus semelhantes, mais para estes do que para si próprios, pois esses meus irmãos, almas heróicas, geradas, como eu, da mesma Luz, eram resignados na sua pobreza e se conformavam com o mínimo que lhes era indispensável.
Um travo de tristeza anuviou a satisfação de que nos últimos tempos minhalma se alcandorava, à vista daquela aldeia onde os problemas se multiplicavam, sem soluções compensadoras. Lembrei-me então dos dias melancólicos da minha existência terrena, quando, palmilhando os gelos de minha terra natal, eu peregrinava por aqui, por ali e acolá à procura das dores alheias para que Deus, suavizando-as por meu intermédio, também a mim, permitisse a misericórdia da suavização das minhas próprias dores, que não foram poucas.
Entrei, agora, de palhoça em palhoça, visitei os camponeses, os operários, os cavouqueiros, os pescadores. E a desolação crescia em minha alma, porque verifiquei que o homem, tal como nos meus velhos tempos, antes de mais nada, conservava-se sofredor, e assim se conservava por ignorar o próprio destino imortal.
Mas... mais além, à beira de uma palhoça com vistas para a cordilheira, um grupo de mulheres conversava amistosamente. À frente, a sombra de um pinheiro tingia de penumbras o alpendre tosco da entrada, enfeitado de jasmins e trepadeiras, ao passo que tílias floridas bordavam de tonalidades suaves o terreno cultivado, a par de videiras tenras que tentavam frutificar.
Que diriam entre si aquelas pobres camponesas?...
Seu mundo era tão restrito, tão modestos os seus ideais, que não passavam do desejo da boa saúde dos maridos e do crescimento dos filhos, que bem cedo deveriam marchar para a lavoura, com o pai.
Aproximei-me :
Elas eram ruivas e brancas, de faces rosadas e frescas, como legítimas italianas, volumosas em suas saias berrantes e fartas, com alvos aventais e toucas típicas, que as tornavam graciosas. Sim, que diriam?...
Detive-me a ouvi-las, como outrora, durante meus passeios solitários, ao encontrar um e outro "mujik" (2), que vinham solicitar a ajuda que nunca lhes pude plenamente conceder. E uma lágrima deslizou de minha alma, a essa melancólica evocação.
Eis o que se passava:
– Sim, Senhora Rafaela, conta à nossa Gertrudes o que te sucedeu durante esta noite... para ver se ela deixará de também chorar a morte do seu pequerrucho, que lá vai dois anos se foi para o bom Deus, sem que ela, a mãe, o esqueça... Conta-lhe...
– Sim, Rafaela, não te faças rogada... Conta-nos novamente o teu lindo sonho...
E Rafaela contou às vizinhas, pela décima vez, naquela manhã de primavera, o sonho que tivera, tendo agora, porém, um ouvinte a mais, invisível, do qual nenhuma delas se apercebia:
– Lembra-te, Gertrudes, da minha Adda?... Morreu há seis meses, quando justamente completaria os três anos de idade... e lhe iam sair os últimos queixais... Era tão viva e tão levada, a minha filha...
– Pois sim, lembro-me!... Pois não fui eu que a amamentei por ti, naqueles primeiros dias, quando a febre do leite te fazia variar?... Era tão linda como o meu Giovanino, que também se foi... e sua irmã de leite...
– Lembra-te do que tenho chorado e lamentado durante seis meses, sem dar acordo de mim mesma, inconsolável pela ausência de minha Adda, sem ânimo para o campo, sem comer, sem dormir, já sem crença em Deus, que me levou?...
– Como não havia de me lembrar, ó Rafaela!... Então não sei que assim mesmo tens feito?... Pois assim mesmo não te tenho visto, há seis meses?...
– Pois, Gertrudes, esta noite sonhei – prosseguiu Rafaela –, sonhei que fui convidada para uma festa onde somente crianças deveriam divertir-se. Parece que a tal festa se realizaria pelos arredores do Céu, mais ou menos...
Então, fui.
Era um lugar florido e bonito, e as crianças ali dançavam e cantavam, alegrezinhas, entoando hinos, enquanto se arremessavam punhados de pétalas de rosas brilhantes como estrelas... Traziam coroas de flores luminosas às cabecinhas louras e asas luzentes como devem ser as dos anjos que cortejam a Santa Mãe de Nosso Senhor Menino...
Embevecida, eu as admirava, assistindo à festa com as mãos entrançadas, como se contemplasse anjos do próprio Paraíso...
Mas, de súbito, que pensas que eu vejo?...
Adda! A minha Addazinha!... Mas... triste, contundida e chorosa, asas molhadas, sem bastante brilho para também participar do folguedo dos anjos... porque encharcadas também as suas vestes, e como comparecendo ali clandestinamente, sem se poder apresentar como seria devido numa festa de tal importância.
– Que significa isto, minha filha? – perguntei-lhe eu, no cúmulo da estupefação. – Tu, tão triste, quando eras alegrezinha, assim molhada e transida de frio, como se te houveras afogado nas torrentes do nosso rio Pó... (3) Por que não te divertes com os outros anjos, tu que eras o anjinho do meu coração, a doce bênção de Nosso Pai em meu lar?...
– Não poderia, mãezinha!... – respondeu em lágrimas, que me amarguraram.
– E por que não poderias, filhinha?... Porventura o bom Deus não é complacente contigo?...
– O bom Deus é complacente comigo, sim, mãezinha... Mas é que, na Eternidade, existem leis disciplinares irrevogáveis...
– Francamente, não te entendo, minha filha! Se és um anjo... Não tiveste sequer tempo de pecar... Porque leis severas contigo?...
– Não vês, mamãe, como me encontro?... assim molhada, com minhas asas pesadas, minhas roupagens sombrias, desguarnecidas de fulgurâncias, como não convém aos anjos trazê-las?...
– Mas... por que estás assim, filhinha?... Que te aconteceu?... Dize tudo a tua mãezinha... Quem sabe poderei ajudar-te em alguma coisa?...
– Pois justamente és tu a culpada de tudo, mãezinha... Tanto choras e blasfemas contra Deus, por minha causa, que me prendes ao teu lado, pela compaixão que me inspiras com tua mágoa demasiada e o teu desespero... Tuas lágrimas molham minhas asas, sombreiam minhas vestes, que devem ser de luz... E neste estado não me será possível compartilhar das alegrias das outras crianças que habitam felizes moradas dos Céus, nem alçar vôos pelo Infinito, onde deverão residir aqueles que deixaram o mundo, para se tornarem ditosos...
Promete que não mais hás de chorar e lamentar assim e serei feliz como o são estes que aqui vês, porque poderei seguir, sem pesares, para o seio dAquele que criou leis que tu desconheces, mas que mesmo assim deverás acatar porque são justas e muito sábias... E um dia, mãezinha, aqui mesmo virás ter... para continuarmos a felicidade momentaneamente interrompida...
– Ora, minha filha querida! – respondi-lhe eu, sorridente e comovida – Deus seja louvado! Prometo que me resignarei a essas leis, para não impedir teus vôos para o Céu com as minhas revoltas... Orarei ao bom Deus, isso sim! para que sejas feliz, podendo volitar em torno da Mãe Santíssima, como os demais anjos... e para que, quando possível, venhas até mim, tal como neste momento, a fim de me esclareceres e orientares sobre as coisas de Deus, que desconheço...
Quando Rafaela cessou de falar tinha os olhos secos. Mas as outras mulheres choravam, enquanto eu, invisível a todas elas, monologava com a alma enternecida:
– Oh, Deus dos simples e dos pequeninos! Eu louvo a tua misericórdia, que concede aos pobres e ignorantes do mundo revelações singelas, mas sublimes como esta, para que suas amarguras sejam acalentadas, revelações que, no entanto, encerram profunda essência filosófico-transcendental!...
Na Terra existe uma Ciência, revelada pelo Céu aos homens, que traduz a essência desta história tão repetida entre todas as mães que viram morrer os filhos pequeninos, Ciência capaz de explicá-la, desdobrando-a em ensinamentos de alta significação espiritual. Tu conheces tal Ciência, meu amigo! É a Doutrina que professas, a sacrossanta revelação daqueles que habitam o mundo dos Espíritos. Difunde-a, pois, com todas as forças do teu coração e do teu entendimento, para consolo do teu próximo, que precisa dela para se tornar menos desgraçado.
("Ressurreição e Vida", Leão Tolstoi/ Yvonne A. Pereira)
(1) Piemonte – Região da Itália. Situa-se entre os Alpes, o rio Tessino e os Apeninos. Capital: Turim. Apeninos – Cordilheira de montes calcáreos, que se estende ao longo da península Itálica. Altitude máxima, 2.921m. Grandes jazidas de mármore. (2) Mujik – Camponês. (3) Rio da Itália. Atravessa o Piemonte e a Lombardia.
sábado, 3 de janeiro de 2015
"COMPANHEIROS QUE PARTEM"
"Sofres quando os entes amados se apartam de ti, na direção de tarefas ou
experiências que divergem das tuas...
Quererias viver com
eles em permanente integração e por isso a separação te dói, qual se padecesses
dolorosa mutilação nos tecidos da própria alma.
Entretanto, que afeição verdadeira será menos afeição, apenas por que se
veja fustigada por circunstâncias de espaço e tempo?
A energia solar que invade o céu no Brasil não é diferente daquela que
penetra o firmamento na Tailândia.
Quando os entes queridos te digam adeus nas bifurcações do caminho, não
lhes arremesses à estrada quaisquer farpas de incompreensão.
Faze deles portadores de tua simpatia, seja onde seja.
Quando eles possam beneficiar os outros como beneficiaram a nós e quando
nos retomem o convívio, seja na Terra ou noutros mundos, que nos possam
trazer acrescidas
de amor as vibrações de amor com que os abençoamos na
despedida.
Que seria do mundo se as plantas monopolizassem os próprios frutos ou se
os rios fugissem de viajar, receando o vampirismo da terra
seca?
Dá teu coração, em forma de entendimento e ternura, ao companheiro que
parte e envolve-o em preces de reconhecimento, clareando-lhe o
caminho.
Com dobrados motivos devemos fazer isso, se ele foi, no contato conosco,
um expoente de bondade, enriquecendo-nos a existência de tranquilidade e de
alegria.
Se as leis da
renovação lhe determinaram a ausência, isso ocorre por impositivos que funcionam
acima de nossa própria vontade a lhe chamarem adiante o dom de
cooperar e a
faculdade de construir, investindo-nos na obrigação de seguir-lhe os padrões de
atividade, a fim de que venhamos a progredir sempre e servir
cada vez
mais.
Aquele que nos auxiliou tanto quanto pode, é e será invariavelmente um
benfeitor, diante de quem a gratidão será para nós inequívoca, e de um benfeitor
ninguém se afasta,
com sentimentos de azedume e palavras de fel.
Louvemos os entes amados que nos deixam, convertendo separação em
esperança e transformando distância em razão para agradecimento
maior.
Lembremo-nos de que a fonte que nos dessedenta e ampara a segurança
doméstica pode dessedentar e amparar os nossos vizinhos pela
Misericórdia de Deus."
(“Urgência”, Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)
__._,_.___
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
"MARIA DOIDA"
“Doida! Maria Doida!” A meninada
Persegue a pobre louca em longas filas.
Cerrando as mãos nervosas e intranqüilas,
Maria corre em fúria desgrenhada.
Ah! minha irmã, que em sombra te aniquilas;
Desditosa, sozinha, desprezada,
Bebes, com sede e fome, na calçada,
O pranto que te verte das pupilas!...
Mas, à noite, Maria, enquanto dormes,
Revês, de novo, as árvores enormes
Do teu solar de luxo noutras eras...
E agradeces, na palha seca e fria,
A rude provação de cada dia,
Como preço do júbilo que esperas!"
("Antologia dos Imortais", Casimiro Cunha/Francisco Cândido Xavier)
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
"CONFIANDO"
“... Tende fé em Deus.” – JESUS
(Marcos, 11:22)
"Tendo fé nas descobertas e nas observações conjugadas de
físicos, astrônomos e matemáticos, o homem construiu o foguete com que explora
vitoriosamente o espaço cósmico; tendo fé nas ondas eletromagnéticas, formou as
bases da televisão que hoje transmite a palavra e a imagem a longas distâncias,
simultaneamente, em todas as direções; tendo fé nos processos imunológicos,
iniciados e desenvolvido por ele mesmo, criou a vacina, liquidando o problema
das moléstias contagiosas que, de tempos a tempos, dizimavam
milhares de existências no mundo; tendo fé na escola, dividiu-a em
setores múltiplos e estabeleceu cursos específicos, de modo a servir às
criaturas, da infância à madureza, afastando a Humanidade dos prejuízos da
insipiência e do flagelo da ignorância; tendo fé no motor, inventou o automóvel
em que se transporta, à vontade, de região para região, atendendo aos próprios
interesses com inestimável ganho de tempo.
Assim também, confiando nos ensinamentos do Cristo e
praticando-os como se faz necessário, a criatura edificará a sua própria
felicidade; entretanto, qual acontece ao foguete, à televisão, à vacina, à
escola e ao automóvel, que funcionam, segundo os princípios em que se baseiam, a
fim de oferecerem os frutos preciosos, no auxílio ao homem, a fé nas lições de
Jesus só vale devidamente se for usada."
(“Ceifa de Luz”, Emmanuel/Francisco
Cândido Xavier)
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