sábado, 3 de janeiro de 2015

"COMPANHEIROS QUE PARTEM"

"Sofres quando os entes amados se apartam de ti, na direção de tarefas ou experiências que divergem das tuas...
Quererias viver com eles em permanente integração e por isso a separação te dói, qual se padecesses dolorosa mutilação nos tecidos da própria alma.
       Entretanto, que afeição verdadeira será menos afeição, apenas por que se veja fustigada por circunstâncias de espaço e tempo?
       A energia solar que invade o céu no Brasil não é diferente daquela que penetra o firmamento na Tailândia.
       Quando os entes queridos te digam adeus nas bifurcações do caminho, não lhes arremesses à estrada quaisquer farpas de incompreensão.
       Faze deles portadores de tua simpatia, seja onde seja.
       Quando eles possam beneficiar os outros como beneficiaram a nós e quando nos retomem o convívio, seja na Terra ou noutros mundos, que nos possam
trazer acrescidas de amor as vibrações de amor com que os abençoamos na despedida.
       Que seria do mundo se as plantas monopolizassem os próprios frutos ou se os rios fugissem de viajar, receando o vampirismo da terra seca?
       Dá teu coração, em forma de entendimento e ternura, ao companheiro que parte e envolve-o em preces de reconhecimento, clareando-lhe o caminho.
       Com dobrados motivos devemos fazer isso, se ele foi, no contato conosco, um expoente de bondade, enriquecendo-nos a existência de tranquilidade e de alegria.
Se as leis da renovação lhe determinaram a ausência, isso ocorre por impositivos que funcionam acima de nossa própria vontade a lhe chamarem adiante o dom de
cooperar e a faculdade de construir, investindo-nos na obrigação de seguir-lhe os padrões de atividade, a fim de que venhamos a progredir sempre e servir cada vez
mais.
       Aquele que nos auxiliou tanto quanto pode, é e será invariavelmente um benfeitor, diante de quem a gratidão será para nós inequívoca, e de um benfeitor
ninguém se afasta, com sentimentos de azedume e palavras de fel.
       Louvemos os entes amados que nos deixam, convertendo separação em esperança e transformando distância em razão para agradecimento maior.
       Lembremo-nos de que a fonte que nos dessedenta e ampara a segurança doméstica pode dessedentar  e amparar os nossos vizinhos pela Misericórdia de Deus."
(“Urgência”, Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

"MARIA DOIDA"

“Doida! Maria Doida!” A meninada
Persegue a pobre louca em longas filas.
Cerrando as mãos nervosas e intranqüilas,
Maria corre em fúria desgrenhada.

Ah! minha irmã, que em sombra te aniquilas;
Desditosa, sozinha, desprezada,
Bebes, com sede e fome, na calçada,
O pranto que te verte das pupilas!...

Mas, à noite, Maria, enquanto dormes,
Revês, de novo, as árvores enormes
Do teu solar de luxo noutras eras...

E agradeces, na palha seca e fria,
A rude provação de cada dia,
Como preço do júbilo que esperas!"


("Antologia dos Imortais", Casimiro Cunha/Francisco Cândido Xavier)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

"CONFIANDO"

“... Tende fé em Deus.” – JESUS (Marcos, 11:22)

       "Tendo fé nas descobertas e nas observações conjugadas de físicos, astrônomos e matemáticos, o homem construiu o foguete com que explora vitoriosamente o espaço cósmico; tendo fé nas ondas eletromagnéticas, formou as bases da televisão que hoje transmite a palavra e a imagem a longas distâncias, simultaneamente, em todas as direções; tendo fé nos processos imunológicos, iniciados e desenvolvido por ele mesmo, criou a vacina, liquidando o problema das moléstias contagiosas que, de tempos a  tempos, dizimavam milhares  de existências no mundo; tendo fé na escola, dividiu-a em setores múltiplos e estabeleceu cursos específicos, de modo a servir às criaturas, da infância à madureza, afastando a Humanidade dos prejuízos da insipiência e do flagelo da ignorância; tendo fé no motor, inventou o automóvel em que se transporta, à vontade, de região para região, atendendo aos próprios interesses com inestimável ganho de tempo.
       Assim também, confiando nos ensinamentos do Cristo e praticando-os como se faz necessário, a criatura edificará a sua própria felicidade; entretanto, qual acontece ao foguete, à televisão, à vacina, à escola e ao automóvel, que funcionam, segundo os princípios em que se baseiam, a fim de oferecerem os frutos preciosos, no auxílio ao homem, a fé nas lições de Jesus só vale devidamente se for usada."

(“Ceifa de Luz”, Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

"CÓDIGO PENAL DA VIDA FUTURA"

"O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:

1º - A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

2º A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.

3º - Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.

A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.

A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.

De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.

4º - Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.


5º - Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.

O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.

6º - O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.

7º - O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as conseqüências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

8º - Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha conseqüências fatais, como não na uma única ação meritória. um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais ações um começo de progresso.

9º - Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em urna existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

10º - O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a conseqüência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências.

Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram.

11º - A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.

12º - Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.

13º - A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.

Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem.

Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem.

Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando não existe mais (1); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

(1) Vede cap. VI, nº 25, citação de Ezequiel.

14º - Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.

15º - Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (2)

(2) Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se o limite das neves perpétuas; o eterno gelo dos pólos; também se diz o secretário perpétuo da Academia, o que não significa que o seja ad perpetuam, mas unicamente por tempo ilimitado. Eterno e perpétuo se empregam, pois, no sentido de indeterminado. Nesta acepção pode dizer-se que as penas são eternas, para exprimir que não têm duração limitada; eternas, portanto, para o Espírito que lhes não vê o termo.

16º - O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

17º - O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.

Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.

A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do p róprio passado. (1)

(1) A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça. que se pode considerar verdadeira lei de reabilitação morai dos Espíritos. Entretanto, essa doutrina religião alguma ainda a proclamou. Algumas pessoas repelem-na porque acham mais cômodo o poder quitarem-se das más ações por um simples arrependimento, que não custa mais que palavras, por meio de algumas fórmulas; contudo, crendo-se, assim, quites, verão mais tarde se isso lhes bastava. Nós poderíamos perguntar se esse principio não é consagrado pela lei humana, e se a justiça divina pode ser inferior à dos homens? E mais, se essas leis se dariam por desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse, por abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita infinitamente.

Por que hão de vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo homem honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças?

Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas, será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso que o inferno e respectivas penas eternas, visto como interessa a vida em sua plena atualidade, podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a tornam penosa, ou a sua verdadeira situação.

18º - Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.

19º - Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina.

Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.

20º - Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e, conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.

Persistindo no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.

OBSERVAÇÃO - Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não se apercebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será intérmino se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas conseqüências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre interdita qualquer idéia de esperança, não tendo pois o homem interesse em converter-se ao bem, para ele sem proveito.

Diante dessa lei, cai também a objeção extraída da presciência divina, pois Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente condenada a torturas infinitas.

21º - A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.

Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.

22º - Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.

A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na conseqüente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.

Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos, quase nula a turbação de um pacífico despertar.

23º - Um fenômeno mui freqüente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e perplexidades da vida.

24º - Para o criminoso, a presença incessante das vitimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25º - Espíritos há mergulhados em densa treva; outros se encontram em absoluto insulamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição, como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um termo.

Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam com intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.

26º - Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as conseqüências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se compadecerá na morte.

27º - O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas conseqüências.

28º - A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada na vida corpórea.

Mais tarde, outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus vícios e inutilidades, paga-la-ão mui caro em ulterior existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: - "Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados," (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V.)

29º - Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre a conseqüência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.

30º - Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.

31º - As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corpórea, que são conseqüentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. z na vida corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a perfectibilidade. (1)

(1) Vede 1ª' Parte, cap. V, "O purgatório", nº 3 e seguintes; e, após, 2ª Parte, cap. VIII, "Expiações terrestres". Vede, também, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, "Bem-aventurados os aflitos".

32º - Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas, criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus poderia fazê-lo, e se o não fez é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o fato existe, devemos aceitá-lo.

Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei.

injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao contrário, a justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.

Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições para atingi-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.

Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.

O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.

33º - Em que pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três princípios:

1º - O sofrimento é inerente à imperfeição.

2º - Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.

3º - Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: - tal é a lei da Justiça Divina."

("O Céu e o Inferno", Allan Kardec)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"CONFORTO"

"O óleo e o perfume alegram o coração; assim o amigo encontra doçura ao conselho cordial." Pv. 27:9

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"O conforto é uma espécie de agasalho para a alma, desde que não passe dos limites traçados pelo discernimento. Dificilmente usas um bom perfume, sem ostentar uma cota de satisfação.
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A cordialidade, quando acompanha um conselho nos moldes evangélicos, gera grande interesse no coração de quem ouve e alegra a consciência de quem a transmite. São agentes invisíveis congêneres que se permutam, de criatura para criatura.
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O alento é um bálsamo que o coração busca por inspiração, onde quer que seja. No entanto, é enobrecedor que, quando consolado, oferta alguma coisa aos tristes e desesperados, para que ninguém venha a dizer com razão que és amigo do egoísmo e parente da usura.
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Não deves ficar somente no consolo, sem que outros participem do que sabes; lembra-te que ainda tens muito que aprender. A sabedoria é infinita e o amor é sem limites.
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O conforto espiritual é ponto dominante do coração, mas convém saber que o corpo físico não funciona bem, sem harmonia nos órgãos.
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Animação vem da esperança, e essa oferece consolação, entretanto, é estipulado um preço no câmbio divino, que é o auto aperfeiçoamento. Quem não se esforça, não progride.
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Dá lenitivo sem buscar refrigério, que os céus nunca se esquecem do trabalhador desprendido que somente se interessa pelo bem-estar da humanidade.
Quem doa sem esperar recompensa é sempre recompensado por Deus.
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O trabalhador honesto, manso e cordial, recebe tudo de bom nos caminhos que percorre e, ainda mais, recebe o reconforto das mãos daquele que tudo vê nos corações benevolentes.
A consciência tranquila é o fruto do diploma da alma.
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Trabalhemos, pois, para o nosso conforto, sem contudo esquecermos do bem-estar do próximo, porque sozinho ninguém vive, mesmo com abundância de tudo."
(“Gotas de Amor”, Carlos/João Nunes Maia)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

"TRABALHEMOS TAMBÉM"

“E dizendo: Varões, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões.” — (ATOS, CAPÍTULO 14, VERSÍCULO 15.)


"O grito de Paulo e Barnabé ainda repercute entre os aprendizes fiéis.

A família cristã muita vez há desejado perpetuar a ilusão dos habitantes de Listra.

Os missionários da Revelação não possuem privilégios ante o espírito de testemunho pessoal no serviço. As realizações que poderíamos apontar por graça ou prerrogativa especial, nada mais exprimem senão o profundo esforço deles mesmos, no sentido de aprender e aplicar com Jesus.

O Cristo não fundou com a sua doutrina um sistema de deuses e devotos, separados entre si; criou vigoroso organismo de transformação espiritual para o bem supremo, destinado a todos os corações sedentos de luz, amor e verdade.

No Evangelho, vemos Madalena arrastando dolorosos enganos, Paulo perseguindo ideais salvadores, Pedro negando o Divino Amigo, Marcos em luta com as próprias hesitações; entretanto, ainda aí, contemplamos a filha de Magdala, renovada no caminho redentor, o grande perseguidor convertido em arauto da Boa Nova, o discípulo frágil conduzido à glória espiritual e o companheiro vacilante transformado em evangelista da Humanidade inteira.

O Cristianismo é fonte bendita de restauração da alma para Deus.

O mal de muitos aprendizes procede da idolatria a que se entregam, em derredor dos valorosos expoentes da fé viva, que aceitam no sacrifício a verdadeira fórmula de elevação; imaginam-nos em tronos de fantasia e rojam-se-lhes aos pés, sentindo-se confundidos, inaptos e miseráveis, esquecendo que o Pai concede a todos os filhos as energias necessárias à vitória.

Naturalmente, todos devemos amor e respeito aos grandes vultos do caminho cristão; todavia, por isto mesmo, não podemos olvidar que Paulo e Pedro, como tantos outros, saíram das fraquezas humanas para os dons celestiais e que o Planeta Terreno é uma escola de iluminação, poder e triunfo, sempre que buscamos entender-lhe a grandiosa missão."
 
 

("Pão Nosso", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)
 

domingo, 28 de dezembro de 2014

"HONORABILIDADE"



"Estatuiu-se, na sociedade terrestre, que as conquistas de qualquer expressão exaltam o indivíduo e proporcionam-lhe honorabilidade e respeito. O progresso, portanto, atrela-se a qualidades morais, mesmo quando não exista qualquer correlação de identidade.

O desenvolvimento intelectual, a conquista de recursos econômicos, o destaque na Arte, na política, em qualquer que seja a área, produz respeitabilidade, honradez, e o seu portador passa a receber a bajulação dos parvos e dos aproveitadores, dos oportunistas sempre à espera de compensações. Entrementes, o progresso material nem sempre faz-se acompanhar daquele de natureza moral.

Nem todas as aquisições que deslumbram e projetam o ser humano têm procedência digna, sendo muitas assinaladas pela astúcia ou pela desonestidade, por métodos escusos ou heranças de procedência vergonhosa.

A honorabilidade resulta da vivência dos valores éticos adotados, dos costumes saudáveis, das condutas retas.

Mais facilmente se encontra nos sofredores a presença honrosa da dignidade, que constitui alicerce moral de segurança, sobre o qual são edificados os sentimentos de elevação e de paz, mesmo quando não existem os recursos aplaudidos pelos interesses da comunidade.

Considerando-se o hedonismo, o existencialismo e o individualismo que se estabeleceram como programas sociais da atualidade, não são de surpreender as ocorrências danosas que se instalam no comportamento geral com aspectos terríveis, avassaladores.

Violência, crimes de diversas ordens, rivalidades entre os indivíduos, traições, indiferenças pelo próximo e os seus problemas, constituem os frutos espúrios do comportamento ideológico da imensa maioria dos cidadãos do mundo.

Quando se lhes apresentam pautas morais de coragem ante as naturais vicissitudes, roteiros de elevação diante dos desafios evolutivos, propostas de dignificação e condutas éticas, são considerados fora de época, desequilíbrio mental, perturbação masoquista, porque estes são os dias para o prazer em que se deve beber a taça do consumo até as últimas gotas.

A princípio tem-se a impressão de que o licor da juventude e do estonteante gozo é absorvido até o momento quando esse conteúdo converte-se em fel e veneno, passando a destruir aqueles que o libam.

A filosofia dominante, eminentemente egotista, é a do ter mais e sempre mais, do destacar-se para aproveitar o momento fugaz até a exaustão.

Especialistas em atividades de divertimento e de sensações renovadas não se dão conta de que, enquanto elaboram planos de júbilos infindáveis, mais se acercam da desencarnação. Quando surpreendidos pelas enfermidades que alcançam a todos, pelos desencantos de algum insucesso, pelos acidentes orgânicos paralisantes e aqueles de outra natureza, não dispõem de resistência emocional para a sua administração.

Acreditam-se, inconscientemente, invulneráveis, inatingíveis pelo sofrimento que somente elege os outros, a ponto de viverem anestesiados em relação aos valores existenciais e à fragilidade de que se constitui o ocaso carnal no qual se encontram.

Quanta ilusão nos propósitos de viver apenas para desfrutar!

É natural que todos os seres humanos anelem pela felicidade. O fundamental, no entanto, é saber-se em que a mesma consiste. Ignorando-se o de que se constitui, abraçam-se as sensações fortes, o armamento preventivo contra a solidariedade, a fim de não se exporem, e fogem sempre na busca da alegria que não deve cessar. Alcançando-a, não se dão conta de como é rápida a sua presença na emoção, logo cedendo lugar à ânsia de novos e incessantes júbilos.

O corpo, porém, não está programado somente para as sensações, mas sobretudo para as emoções e, quando essas se derivam do exterior, abrem espaço para o vazio existencial, para a sensação de inutilidade.

A felicidade, sem dúvida, é emoção profunda e duradoura de plenitude que o Espírito vivencia quando consegue conciliar a consciência tranquila como resultado do caráter íntegro e das emoções pacificadoras.

Honoráveis são todos aqueles que conseguem superar as más inclinações e se dignificam no esforço da autoiluminação.

Nesse sentido, a oferta de Jesus, desde há quase dois mil anos, diz respeito à imortalidade e não apenas à maneira como deve ocorrer o trânsito carnal que passa célere, mas tem como objetivo essencial trabalhar-se em favor do futuro espiritual inevitável.

É natural que se aspirem pelas alegrias, comodidades, satisfações, bem-estares. Isto, porém, resultará das condutas mentais que dão lugar aos acontecimentos que se desenrolam durante a existência.

Transferindo-se de uma para outra reencarnação, as realizações apresentam-se em novas formulações que são os desafios evolutivos para serem enfrentados e superados.

As distrações e fugas do dever não conseguem impedir que, no momento próprio, apresentem-se como impositivos inevitáveis para acontecerem.

A consciência lúcida em torno da imortalidade propicia inefável alegria, por facultar os meios hábeis para o comportamento nos momentos difíceis da reabilitação moral.

Ninguém existe que possa impedir o despertar para a realidade, fenômeno resultante da sucessão do tempo que impõe amadurecimento psicológico, porquanto, qualquer fuga, em vez de libertar do compromisso, mais o complica e o adia, para ressurgir à frente.

Não te escuses ao chamado pela dor para a conquista da honorabilidade.

Se conheces algo da doutrina de Jesus, sabes que ela é um hino de louvor à vida e uma exaltação contínua ao amor em todas as facetas em que se apresente. 
Reflexiona em torno de como te encontras e o que podes fazer para alcançar a meta que te está destinada: a perfeição relativa, o estado de reino dos Céus na mente e no coração.

Honoráveis foram os mártires de todo jaez, que não temeram o sacrifício, inclusive, o da própria existência.

Todo aquele que transforma a existência em um evangelho de amor no reto cumprimento do dever torna-se honorável.

Esforça-te para entender a finalidade existencial e segue, firme e abnegado, a trilha do teu compromisso para com a vida."


(Joanna de Ângelis - Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na sessão mediúnica de 6 de agosto de 2014, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia)