sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"ESCAMAS"




"E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista." -
(ATOS, 9:18.)

"A visita de Ananias a Paulo de Tarso, na aflitiva situação de Damasco, sugere
elevadas considerações.
Que temos sido nas sombras do pretérito senão criaturas recobertas de escamas
pesadas sob todos os pontos de vista? Não somente os olhos se cobriram de
semelhantes excrescências. Todas as possibilidades confiadas a nós outros hão sido
eclipsadas pela nossa incúria, através dos séculos. Mãos, pés, língua, ouvidos, todos os
poderes da criatura, desde milênios permanecem sob o venenoso revestimento da
preguiça, do egoísmo, do orgulho, da idolatria e da insensatez.
O socorro concedido a Paulo de Tarso oferece, porém, ensinamento profundo.
Antes de recebê-lo, o ex-perseguidor rende-se incondicionalmente ao Cristo; penetra a
cidade, em obediência à recomendação divina, derrotado e sozinho, revelando extrema
renúncia, onde fora aplaudido triunfador. Acolhido em hospedaria singela, abandonado de
todos os companheiros, confiou em Jesus e recebeu-lhe a sublime cooperação.
É importante notar, contudo, que o Senhor, utilizando a instrumentalidade de
Ananias, não lhe cura senão os olhos, restituindo-lhe o dom de ver. Paulo sente que lhe
caem escamas dos órgãos visuais e, desde então, oferecendo-se ao trabalho do Cristo,
entra no caminho do sacrifício, a fim de extrair, por si mesmo, as demais escamas que lhe
obscureciam as outras zonas do ser.
Quanto lutou e sofreu Paulo, a fim de purificar os pés, as mãos, a mente e o
coração?
Trata-se de pergunta digna de ser meditada em todos os tempos. Não te esqueças,
pois, de que na luta diária poderás encontrar os Ananias da fraternidade, em nome do
Mestre; aproximar-se-ão, compassivos, de tuas necessidades, mas não olvides que o
Senhor apenas permite que te devolvam os olhos, a fim de que, vendo claramente,
retifiques a vida por ti mesmo."
("Vinha de Luz", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

"AMARGURA"





"Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus e de que nenhuma raiz
de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem." - Paulo.
(HEBREUS, 12:15.)

"Para bem servir ao Senhor, não é razoável marchemos ao longo do trabalho
honroso à maneira de cooperadores lacrimosos e descontentes.
A mágoa, muitas vezes, traduz desconfiança e deslealdade.
O coração operoso e confiante nunca perde o otimismo, colocando-se, antes de
tudo, à frente do Infinito e da Eternidade.
Há dificuldades e problemas?
Prossigamos em serviço e o Mestre Divino oferecer-nos-á a solução.
Há sombras?
Lembremo-nos de que não existem nuvens eternas, porque o Centro da Criação
é Luz Imperecível.
Há quedas?
Estejamos convictos de que o reerguimento não se fará esperar.
O dever do trabalhador é continuar a tarefa que lhe foi conferida, tanto quanto a
obrigação do servo fiel é marchar na realização do programa de quem lhe concedeu a
bênção do serviço edificante.
Tenhamos em mente que, em favor do êxito geral de nosso esforço, é
imprescindível o incessante combate às raízes de amargura no coração. Se brotarem
livremente, serão venenosos arbustos, prejudicando a movimentação dos interesses
coletivos de elevação e paz.
Guardemos reflexão e prudência, mas destruamos a amargura injustificável, para
que não perturbemos a obra do Mestre e para que os nossos amados não se privem da
graça de Deus."
("Vinha de Luz", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

"AMIZADE E COMPREENSÃO"




"Com leite vos criei, e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem ainda agora
podeis." - Paulo. (I CORÍNTIOS, 3:2.)


"Muitos companheiros de luta exigem cooperadores esclarecidos para as tarefas
que lhes dizem respeito, amigos valiosos que lhes entendam os propósitos e valorizem os
trabalhos, esquecidos de que as afeições, quanto as plantas, reclamam cultivo adequado.
Compreensão não se improvisa. É obra de tempo, colaboração, harmonia.
O próprio Cristo, primeiramente, semeou o ideal divino no coração dos
continuadores, antes de recolher-lhes o entendimento. Sofreu-lhes as negações, toleroulhes
as fraquezas e desculpou-lhes as exigências para formar, por fim, o colégio
apostólico.
Nesse particular, Paulo de Tarso fornece-nos judiciosa lição, declarando aos
Coríntios que os criara "com leite". Tão pequena afirmativa transborda sabedoria
vastíssima. O apóstolo generoso, gigante no conhecimento e na fé viva, edificara os
companheiros de sua missão evangélica em Corinto, não com o alimento complexo das
teses difíceis, mas com os ensinamentos simples da verdade e as puras demonstrações
de amor em Cristo Jesus. Não lhes conquistara a confiança e a estima exibindo cultura ou
impondo princípios, mas, sim, orando e servindo, trabalhando e amando.
Existe uma ciência de cultivar a amizade e construir o entendimento. Como
acontece ao trigo, no campo espiritual do amor, não será possível colher sem semear.
Examina, pois, diariamente, a tua lavoura afetiva. Observa se estás exigindo flores
prematuras ou frutos antecipados. Não te esqueças da atenção, do adubo, do irrigador.
Coloca-te na posição da planta em jardim alheio e, reparando os cuidados que exiges, não
desdenhes resgatar as tuas dívidas de amor para com os outros.
Imita o lavrador prudente e devotado, se desejas atingir a colheita de grandes e
precisos resultados."
("Vinha de Luz", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"HSTÓRIA DE UM PÃO"




Cap. XIII – Item 15

"Quando Barsabás, o tirano, demandou o reino da morte, buscou
debalde reintegrar-se no grande palácio que lhe servira de
residência.
A viúva, alegando infinita mágoa, desfizera-se da moradia,
vendendo-lhe os adornos.
Viu ele, então, baixelas e candelabros, telas e jarrões, tapetes e
perfumes, jóias e relíquias, sob o martelo do leiloeiro, enquanto os
filhos querelavam no tribunal, disputando a melhor parte da herança.
Ninguém lhe lembrava o nome, desde que não fosse para reclamar
o ouro e a prata que doara a mordomos distintos.
E porque na memória de semelhantes amigos ele não passava,
agora, de sombra, tentou o interesse afetivo de companheiros outros
da infância...
Todavia, entre eles encontrou simplesmente a recordação dos
próprios atos de malquerença e de usura.
Barsabás entregou-se às lágrimas de tal modo, que a sombra
lhe embargou, por fim, a visão, arrojando-o nas trevas.
Vagueou por muito tempo no nevoeiro, entre vozes acusadoras,
até que um dia aprendeu a pedir na oração, e como se a rogativa
lhe servisse de bússola, embora caminhasse às escuras, eis que,
de súbito, se lhe extingue a cegueira e ele vê, diante de seus passos,
um santuário sublime, faiscante de luzes.
Milhões de estrelas e pétalas fulgurantes povoavam-no em todas
as direções.
Barsabás, sem perceber, alcançara a Casa das Preces de Louvor,
nas faixas inferiores do firmamento.
Não obstante deslumbrado, chorou, impulsivo, ante o Ministro
espiritual que velava no pórtico.
Após ouvi-lo, generoso, o funcionário angélico falou sereno:
– Barsabás, cada fragmento luminoso que contemplas é uma
prece de gratidão que subiu da Terra...
– Ai de mim – soluçou o desventurado – eu jamais fiz o bem...
– Em verdade – prosseguiu o informante –, trazes contigo, em
grandes sinais, a pranto e o sangue dos doentes e das viúvas, dos
velhinhos e órfãos indefesos que despojaste, nos teus dias de invigilância
e de crueldade; entretanto, tens aqui, em teu crédito, uma
oração de louvor...
E apontou-lhe acanhada estrela, que brilhava à feição de pequenino
disco solar.
– Há trinta e dois anos – disse, ainda, o instrutor –, deste um
pão a uma criança e essa criança te agradeceu, em prece ao Senhor
da Vida.
Chorando de alegria e consultando velhas lembranças, Barsabás
perguntou:
– Jonakim, o enjeitado?
– Sim, ele mesmo – confirmou o missionário divino –. Segue a
claridade do pão que deste, um dia, por amor, e livrar-te-ás, em
definitivo, do sofrimento nas trevas.
E Barsabás acompanhou o tênue raio do tênue fulgor que se
desprendia daquela gota estelar, mas, em vez de elevar-se às alturas,
encontrou-se numa carpintaria humilde da própria Terra.
Um homem calejado aí refletia, manobrando a enxó em pesado
lenho...
Era Jonakim, aos quarenta de idade.
Como se estivessem os dois identificados no doce fio de luz,
Barsabás abraçou-se a ele, qual viajante abatido, de volta ao calor
do lar.
*
Decorrido um ano, Jonakim, o carpinteiro, ostentava, sorridente,
nos braços, mais um filhinho, cujos louros cabelos emolduravam
belos olhos azuis.
Com a benção de um pão dado a um menino triste, por espírito
de amor puro, conquistara Barsabás, nas Leis Eternas, o prêmio de
renascer para redimir-se."

Irmão X
("O ESPÍRITO DA VERDADE", Espíritos Diversos, Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira)

"AS TESTEMUNHAS"


“Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo 
o embaraço.” – Paulo. (Hebreus, 12:1.)


"Este conceito de Paulo de Tarso merece considerações especiais, por parte dos aprendizes do Evangelho.

Cada existência humana é sempre valioso dia de luta – generoso 
degrau para a ascensão infinita – e, em qualquer posição que 
permaneça, a criatura estará cercada por enorme legião de testemunhas.
Não nos reportamos tão-somente àquelas que constituem
parte integrante do quadro doméstico, mas, acima de tudo, aos 
amigos e benfeitores de cada homem, que o observam nos diferentes ângulos da vida, dos altiplanos da espiritualidade superior.
Em toda parte da Terra, o discípulo respira rodeado de grande 
nuvem de testemunhas espirituais, que lhe relacionam os passos e 
anotam as atitudes, porque ninguém alcança a experiência terrestre,  a esmo, sem razões sólidas com bases no amor ou na justiça.
Antes da reencarnação, Espíritos generosos endossaram as
súplicas da alma arrependida, juizes funcionaram nos processos 
que lhe dizem respeito, amigos interferiram nos serviços de auxílio, contribuindo na organização de particularidades da luta redentora...
Esses irmãos e educadores passam a ser testemunhas permanentes 
do tutelado, enquanto perdura a nova tarefa e lhe falam 
sem palavras, nos refolhos da consciência. Filhos e pais, esposos e  esposas, irmãos e parentes consangüíneos do mundo são protagonistas do drama evolutivo. Os observadores, em geral, permanecem no outro lado da vida.
Faze, pois, o bem possível aos teus associados de luta, no dia
de hoje, e não te esqueças dos que te acompanham, em espírito, 
cheios de preocupação e amor."
("Pão Nosso", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)