segunda-feira, 7 de maio de 2018

"TUA ALMA"

"Tua alma é uma luz - não a extingas...
Tua alma é uma harpa - não a destemperes...
Tua alma é um espelho - não o embacies...
Tua alma é uma flor - não a deixes murchar...
Tua alma é uma fonte - não lhe turves as águas...
Tua alma é um santuário - não o profanes...
Tua alma é um poema - não lhe roubes a poesia...
Tua alma é uma virgem - respeita-lhe a pureza...
Tua alma é um mistério - silencia-lhe os segredos...
Tua alma é um arco-íris - contempla-lhe os primores...
Tua alma é livre - não a escravizes...
Tua alma é um sopro de Deus - defende-lhe a vida divina...

* * *
Se tudo isto é tua alma, homem, por que não fazes a tua vida à imagem e semelhança de tua alma?...
Não foi o corpo que produziu a alma - é a alma que produz o corpo...
É a alma espiritual que arquiteta o edifício material de teu ser...
É a alma que forma as carnes, que difunde o sangue, que arma os ossos, que distende os nervos, que desdobra a pele - que confere vida ao organismo inerte!...
É a alma o princípio ativo que domina o elemento passivo......
É a alma que pensa e quer, que sente e ama, que imagina e recorda...
É a alma que de maravilhas de ciência e arte inundou a face da terra...
É a alma que num cosmos de ordem transforma o caos da matéria...
É a alma que sobrevive imortal ao corpo mortal...
É a alma que para uma vida nova ressuscita o corpo desfeito...
Se tudo isto faz a alma, meu amigo, por que dás ao corpo as 24 horas do dia - e nenhuma hora à alma?
Por que não lhe dás, em carinhosa solicitude, ao menos uma hora por dia?
Por que não a enriqueces, quando pobre?
Por que não a curas, quando enferma?
Por que não a libertas, quando escrava?
Por que não a robusteces, quando fraca?
Por que não a alimentas, quando faminta?
Por que não lhe dás de beber, quando sequiosa?
Por que não lhe dás um banho solar quando saudosa da luz?
Por que não a fazes respirar na atmosfera divina, quando desejosa de Deus?
Tem caridade com tua alma, homem - porque tua alma é tua vida...
Tua alma és tu mesmo..."

"De Alma Para Alma", Huberto Rohden

segunda-feira, 30 de abril de 2018

"O HOMEM NO MUNDO"

"O Espiritismo é um processo de integração do homem no mundo e não de fuga. Todas as formas de isolamento social e de segregação religiosa são condenadas pela doutrina. Os resíduos do sectarismo religioso, alimentados em várias encarnações, permanecem ainda bastante ativos em alguns adeptos, fazendoos sonhar com um isolacionismo sectário que atenta contra a própria essência dos ensinos espíritas. É o fermento velho a que se referiu Jesus, como vemos no Evangelho. 

O Cristianismo teve de enfrentar esse mesmo problema em seu desenvolvimento. E, apesar da vitória das correntes cristãs mais ativas, não foi possível evitar-se a criação de ordens e congregações dedicadas à vida contemplativa, empenhadas na fuga ao mundo para o encontro com Deus. Essa tendência à fuga é característica das religiões orientais. Basta compararmos a vida contemplativa e os ensinos disciplinares de Buda com a vida ativa e os ensinos morais do Cristo, para vermos a diferença entre o espírito oriental e o espírito ocidental nas religiões. 

Na mensagem intitulada “O homem no mundo”, constante do capítulo XVII de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", encontramos o seguinte trecho: “Não penseis que, ao vos exortar à prece e à evocação mental, queiramos levar-vos a viver uma vida mística que vos mantenha fora das leis da sociedade. Não. Vivei com os homens do vosso tempo, como devem viver os homens. Sacrificai-vos às necessidades e até mesmo às frivolidades de cada dia, mas fazei-o com o sentimento de pureza que as possa purificar”. E no capítulo “A Lei de Sociedade”, de "O Livro dos Espíritos", a afirmação é taxativa: “Os homens são feitos para viver em sociedade”. Os médiuns e doutrinadores espíritas têm uma missão eminentemente social. 

Para bem cumprir essa missão devem servir-se de todos os meios, os mais eficientes possíveis, de divulgação da doutrina. E foi o próprio Jesus quem ensinou que não devemos esconder a lâmpada embaixo da cama, mas colocá-la no alto, para que ilumine a todos."

"Na Era do Espírito", José Herculano Pires

segunda-feira, 23 de abril de 2018

"HORIZONTES ESPIRITUAIS"

 "Céu e Terra se encontram no horizonte. Durante milênios os homens acreditaram na realidade desse contato. Na Era Científica essa realidade transformou-se em simples ilusão de ótica. Mas a partir da Era Psicológica, aberta com as pesquisas espíritas de Allan Kardec, tornou-se evidente para muitas criaturas a existência real de uma linha divisória entre o finito e infinito. O horizonte seria, assim, um dos muitos signos naturais que Deus semeou na Terra para alertar os homens quanto à Realidade Maior que os nossos sentidos físicos não percebem. 

Na Era do Espírito, que agora se inicia, com o desenvolvimento do Espiritismo arrastando a Psicologia além de si mesma, os horizontes espirituais se abrem em todas as direções, desde o finito do átomo até o infinito das galáxias. O mistério dos vírus desafia a pesquisa biológica, traçando o horizonte da vida entre a matéria orgânica e a inorgânica; a descoberta da antimatéria revela a fímbria invisível no seio do próprio átomo; a investigação psicossomática acentua as linhas de contato entre espírito e corpo; a eclosão mediúnica torna palpável a linha vibratória entre duas humanidades, a visível e a invisível; a descoberta do corpo bioplástico está liquidando as últimas esperanças do materialismo soviético; as conquistas da Astronáutica deram-nos a imagem viva da Terra azul engastada no Infinito; e a vitória da Parapsicologia referendou, no veredicto das estatísticas, através do método quantitativo de pesquisas, as perspectivas abertas pelo Espiritismo em meados do século passado. Diante dos múltiplos horizontes espirituais da atualidade, que os dedos de todos os tomés podem tocar na realidade positiva das Ciências, este novo livro mediúnico de Francisco Cândido Xavier aparece como a continuidade natural de um trabalho paciente. 

Desde a publicação de "O Livro dos Espíritos", em 1857, a bibliografia espírita vem se desenvolvendo na Terra com a naturalidade dos trigais. Muito joio foi semeado na seara, mas o bom trigo continuou a germinar por todo o mundo. Ervas e aves malignas tentaram destruí-la, pragas numerosas a atacaram, mas os bons lavradores continuaram a semear e a cultivar o bom trigo. Chico Xavier tem sido um dos mais persistentes e este livro é mais uma prova disso. De Pedro Leopoldo a Uberaba a sua rota é marcada por mais de cento e vinte obras psicografadas que atingiram um total de mais de três milhões de exemplares em nosso país, além das várias traduções na Europa e na América do Norte. Mais de quinhentos autores espirituais assinam esses textos, muitos deles sendo figuras exponenciais das nossas letras. Esses autores se identificam de maneira evidente pelo estilo e a temática, e em vários casos a identificação pôde ser comprovada também pela caligrafia e pela assinatura, além de particulares motivos de identificação em suas formas de apresentação ao médium, de episódios desconhecidos de suas vidas revelados em conversações mediúnicas com ele. Neste volume há diversos casos dessa natureza, que procuramos acentuar em nossos comentários. Com mais de sessenta anos de idade e mais de quarenta anos de atividade psicográfica intensiva, contando-se por milhares as mensagens particulares que não figuram em livros, Chico Xavier vem cumprindo a sua missão com inexcedível paciência evangélica. Os tempos mudaram nestes últimos vinte e cinco anos, e Chico Xavier é hoje uma personalidade mediúnica reconhecida e admirada no Brasil e no mundo, consagrada por homenagens oficiais que lhe vêm sendo prestadas por casas legislativas de todo o país. Mas antes disso o seu trabalho se desenvolveu sob apupos e calúnias, ameaças e perseguições. Num período e noutro o seu ânimo não se modificou, a sua paciência não se alterou, a sua firmeza não revelou jamais o menor abalo, a sua linha de conduta espírita não se quebrou. Naturalidade no cumprimento dos deveres mediúnicos, paciência cristã na aceitação do martírio e da glória. E tudo isso sob o signo do desinteresse, da abnegação perfeita, doando sistematicamente os direitos autorais de toda a sua obra a instituições espíritas beneficentes, sem delas auferir o menor proveito. Chico Xavier é também, como homem, como vivência, como exemplo, um dos horizontes espirituais que marcam a Era do Espírito. É o protótipo do homem novo, é o interexistente, como réplica viva ao conceito do existente criado pelas Filosofias da Existência, ou seja, pelo Existencialismo. Existindo simultaneamente em dois mundos, ele traça com a sua vida a linha divisória entre as fases anteriores da evolução humana e a Era do Espírito. 


A nova humanidade terrena começa com Chico Xavier em terras brasileiras, confirmando a assertiva de que o Brasil é o coração do novo mundo que alvorece no planeta, a nova pátria do Evangelho em espírito e verdade. 

Este volume, como o anterior – Chico Xavier Pede Licença –, é formado com o material da secção dominical do médium publicada pelo “Diário de São Paulo”. Como editor dessa secção conseguimos estruturá-la melhor durante o período correspondente ao material aqui reunido, que vai de 28 de maio a 24 de dezembro de 1972. Graças a isso o texto se apresenta mais bem organizado. Cada mensagem psicográfica é antecedida pelas explicações do médium sobre a reunião em que ela foi obtida e os motivos que a determinaram. Segue-se o nosso comentário, assinado com o pseudônimo de Irmão Saulo que há mais de vinte anos usamos para a crônica espírita do conhecido matutino paulistano. Dessa maneira os leitores podem acompanhar, página a página, o processo de recepção das mensagens, segundo a sistemática seguida pelo médium. E as mensagens adquirem uma nova dimensão, pois vemo-las inseridas no tempo, no espaço e na vivência humana das sessões em que foram recebidas. Elas não aparecem de maneira gratuita, como ditadas pelos Espíritos numa elaboração mental abstrata, mas integradas no momento humano que as provocou. Os casos particulares a que se referem são geralmente dolorosos e não raro temos a revelação de processos reencarnatórios que ilustram ao vivo e de maneira dramática os princípios fundamentais do Espiritismo. A tríplice relação das mensagens com o ambiente da reunião, os casos objetivos a que se referem e os trechos citados dos livros básicos da doutrina constituem elementos fecundos de observação e estudo para os leitores atentos. Outros volumes ainda sairão certamente nesta série enriquecendo a nossa bibliografia doutrinária. É a primeira vez que temos esta oportunidade de mostrar o relacionamento vivencial da psicografia com as dores, as angústias e as perplexidades da criatura humana, provando de maneira concreta a participação ativa dos Espíritos na vida efêmera dos encarnados. 

Estes dois volumes – Chico Xavier Pede Licença e Na Era do Espírito – abrem uma nova dimensão dos estudos doutrinários em nossa terra, dando continuidade ao processo iniciado por Kardec na França para a investigação interexistencial da natureza humana, do sentido e da significação da vida humana. A importância desse fato para a Era do Espírito é indisfarçável. E podemos dizê-lo sem nenhuma pretensão, pois os nossos comentários, como Emmanuel já revelou no prefácio do primeiro destes volumes, não são apenas nossos, porque são inspirados. 

Que Deus nos ajude para que a inspiração não nos falte na continuação do trabalho."

J. Herculano Pires São Paulo, 21 junho de 13.
* * *
As observações feitas pelo Prof. Herculano Pires a respeito de Chico Xavier referem-se ao ano de 1973. Hoje ambos se encontram no plano espiritual e Chico nos deixou um legado que supera 400 livros. (Nota da Editora.)





(Prefácio de Emmanuel,  a obra "Na Era do Espírito", Autores Diversos/Francisco Cândido Xavier e José Herculano Pires)

terça-feira, 17 de abril de 2018

"LUZ PARA TODOS"

"Estariam os princípios espíritas endereçados à segregação para uso exclusivo daqueles irmãos que carregam provas visíveis no plano material? Encontramos, com frequência, na Terra quem suponha deva ser a Nova Revelação limitada ao trabalho em favor dos que sofrem a penúria do corpo, sob pena de perder a própria simplicidade. Entretanto, a fulguração solar será menos luz quando clareia o recôncavo de um vale e o topo de um arranha-céu ao mesmo tempo? E, acaso, a fonte se diminuirá em grandeza por deixar-se canalizar em serviço à cidade grande, após haver saciado a sede aos lares do campo? 


* * * Decerto, a mensagem da Vida Maior tem significação mais imediata em auxílio a quantos se vejam no mundo em dificuldades abertas, seja no chão das exigências primárias da natureza ou na sombra das grandes tribulações em que a inconformidade os compele a se tornarem francamente infelizes. Imperioso, porém, pensar naqueles outros companheiros da humanidade que a vida situou em outros setores. Não é a face externa da criatura que lhe determina o grau da necessidade espiritual. Dói-nos ver as mãos que se nos estendem nas ruas, à cata de pão; no entanto, será justo, igualmente, compreender os obstáculos daqueles que se esfalfam em serviço para que haja pão, tanto quanto possível, à mesa de todos. Aflige-nos registrar os empeços do amigo em profissão singela, cujo salário não lhe satisfaz a todos os requisitos da vida simples, mas não nos será lícito esquecer os óbices daqueles que se atormentam na orientação da oficina para que o trabalho não se perturbe ou escasseie.

Magoa-nos surpreender irmãos diversos, acomodados nos palheiros humildes que lhes servem de residência; contudo, não podemos desconhecer os impedimentos daqueles outros que encanecem nas administrações, construindo caminhos ao progresso e traçando horizontes ao reconforto geral. Sensibiliza-nos o martírio das mães que vagueiam nas vias públicas à busca de socorro para filhinhos padecentes; entretanto, seria injusto desconsiderar o sofrimento daquelas outras que se aniquilam, pouco a pouco, dentro de casa, em posição de incessante sacrifício, para sustentarem os descendentes, de modo a que a dignidade humana possa honrosamente sobreviver. 



* * * Reflitamos no conjunto dos problemas humanos e a ninguém deserdemos da verdade e do amor, de vez que em qualquer situação pertencemos todos a Deus e, segundo as nossas necessidades, é natural que Deus nos atenda a cada um."


"Na Era do Espírito", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier

segunda-feira, 16 de abril de 2018

"ANTE A ERA DO ESPÍRITO"

"Senhor Jesus!

 Ante a Era do Espírito, clareia-nos a razão, a fim de compreendermos a tua palavra em dimensões mais altas. 

* * * Agora que os homens erguem o facho da indagação, além dos conhecimentos habituais, concede-nos os meios precisos para caminhar com eles ao encontro da verdade em luz de amor que lhes honorificará o futuro, segundo os teus ensinos. 


* * * A inteligência terrestre fixa hoje elevadas perspectivas na conquista da Consciência Cósmica. A cultura científica abre novas áreas de trabalho e perquirição. A Psiquiatria, a Psicologia e a Análise examinam a vida extra-somática. A Física Nuclear apresenta recursos destinados à elucidação de muitas das ocorrências paranormais. A Fotografia requinta processos de observação e consegue deter imagens do corpo espiritual. O motor encurta distâncias. A Eletrônica altera a experiência comunitária e aperfeiçoa o relacionamento entre os povos. A Astronáutica cria engenhos que controlam a gravidade e partem na direção de outros mundos. 


* * * Quando a era tecnológica exige consequentemente a Civilização do Espírito, ampara-nos o diálogo com os homens – nossos irmãos encarnados – de modo que nós todos, eles e nós, venhamos a responder construtivamente aos desafios dos tempos novos, sem que as pedras do exclusivismo, seja na Religião ou na Ciência, nos obstruam as sendas iluminadas à frente do progresso. 



* * * Livra-nos:  da ignorância;  do orgulho;  do ilogismo;  da divisão;  do fanatismo;  da vaidade;  da intolerância;  do ódio;  do farisaísmo;  da prepotência; e consente, Senhor, que possamos humanizar-te as lições na Doutrina Espírita, a fim de que a imortalidade seja reconhecida na Terra, estabelecendo o teu reino de paz e amor nos homens, com os homens, pelos homens e para os homens, agora, hoje e sempre. 


Assim seja. 

Emmanuel 

Uberaba, 21 de junho de 1973

(Prefácio de Emmanuel,  a obra "Na Era do Espírito", Autores Diversos/Francisco Cândido Xavier e José Herculano Pires)

domingo, 24 de setembro de 2017

"ASSISTÊNCIA ESPIRITUAL"

"Qual sucede no Plano dos companheiros, ainda jungidos à veste física, também nós, os desencarnados, sofremos o desafio de rudes problemas que nos são endereçados da Terra, ansiando vê-los definitivamente solucionados, entretanto é preciso conformar as próprias deliberações aos impositivos da vida.

Entendimento não é construção que se levante de afogadilho e a morte do corpo denso não marmoriza as fibras da alma.

Muitas vezes, trememos diante dos perigos que se nos desdobram à frente de seres amados e outro recurso não identificamos para sossegar-nos a alma senão a prece que nos induz à aceitação da Eterna Sabedoria.

Afligimo-nos, perante filhos queridos, engodados por terríveis enganos e tudo daríamos de nós, para que se harmonizassem com a realidade, sem perda de tempo, mas é forçoso respeitar-lhes o livre arbítrio e contar com o benefício do desencanto, a fim de que a experiência se lhes amadureça, no âmago do ser, por fruto precioso de segurança.

 Partilhamos a dor de enfermos estremecidos que nos envolvem o pensamento nas vibrações atormentadas dos rogos com que nos aguardam a intervenção e renunciaríamos de pronto, a tudo o que significasse nossa própria alegria para rearticular-lhes a saúde terrestre, entretanto, cabe-nos a obrigação de acalentar-lhes a coragem no sofrimento inevitável às vitórias morais deles mesmos.

 Acompanhamos as provas de amigos inolvidáveis que se arrastam em asfixiantes peregrinações no mundo, e, jubilosos, tomar-lhes-íamos o lugar sob as cruzes que carregam, mas é necessário fortalecer-lhes o ânimo, para que não desfaleçam na luta, único meio que lhes garantirá o próprio resgate para a grande libertação.

 Seguimos o curso de acontecimentos desagradáveis, entre irmãos que nos partilham ideais e tarefas, entendendo que qualquer sacrifício justo ser-nos-ia uma bênção para furtá-los aos conflitos que lhes ferem a sensibilidade, contudo, é imperioso, de nossa parte, sustentar-lhes as forças, na travessia das crises menores que lhes vergastam o coração no presente, para que se lhes ilumine o aprendizado e se lhes acorde mais vivamente o senso de responsabilidade no dever a cumprir, evitando-se calamidades maiores que cairiam, de futuro, por agentes arrasadores, nas construções espirituais deles próprios.

 Todos somos de Deus e pertencemo-nos uns aos outros, no entanto, cada qual de nós estagia mentalmente em sítio diverso da evolução.

 Por esse motivo, nas dificuldades e lutas que nos são próprias, suplicamos à Infinita Bondade concessões disso ou daquilo, mas só a Infinita Bondade conhece realmente o que necessitamos daquilo ou disso.

 Condicionemos, assim, os próprios desejos à Divina Orientação que dirige o Universo em divino silêncio, porque foi ao reconhecer-nos por enquanto incapazes de querer e saber, acertadamente, o que mais nos convenha à verdadeira felicidade, é que Jesus nos ensinou a sentir e dizer na oração, diante do Pai: “Seja feita a vossa vontade, tanto na Terra, quanto nos Céus…”

"Mãos Marcadas", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier 

sábado, 23 de setembro de 2017

"PASSIVIDADE"



"No caso do centro, no qual a moça tentava integrar-se para
participar das tarefas coletivas ali desenvolvidas, havia um rígido
padrão de comportamento mediúnico. Nada da elasticidade
recomendada por Boddington e que constitui um dos próprios
ingredientes do fenômeno mediúnico em si, de vez que cada
médium tem suas peculiaridades, precisamente por ser uma personalidade autônoma. Sem nenhuma experiência de trabalho
em conjunto, a nossa jovem entrou assim para um grupo no qual
predominavam muitas ‘regras’ inibidoras.


Nas sessões ditas de desobsessão, exigia o padrão ali adotado
que ela ‘desse passividade’ exatamente como os demais médiuns
treinados pela casa: imóvel, olhos fechados, mãos juntas e abandonadas tranquilamente sobre a mesa. Nenhum gesto era permitido durante a manifestação, nenhuma palavra em tom mais
alto, nenhuma forma de movimentação do corpo, dos membros
ou da cabeça.


Acontece que a mediunidade da nossa jovem tinha seus mé­
todos operacionais próprios, o que vale dizer: eram diferentes
dos que ah se praticavam. Embora disciplinada, sem manifesta­
ções ruidosas ou palavras descontroladas, ela gesticulava moderadamente e mantinha os olhos abertos, dando enfim expressão
e naturalidade às suas manifestações.


Agia acertadamente a meu ver, permitindo que o espírito manifestante
pudesse expressar-se convenientemente, dizer enfim
ao que veio e expor sua situação a fim de que pudesse ser atendido
ou, pelo menos, compreendido nos seus propósitos. Se ele vinha
indignado por alguma razão - e isto é quase que a norma em trabalhos
dessa natureza -, como obrigá-lo a falar serenamente, com
a voz educada, em tom frio e controlado ? Somos nós, encarnados,
capazes de tal proeza? Não elevamos a voz e mudamos de tom
nos momentos de irritação e impaciência? Como exigir procedimento
diferente do manifestante e do médium? Afinal de contas,
se a manifestação ficar contida na rigidez de tais' parâmetros, acaba
inibida e se torna inexpressiva, quando não inautêntica, de tão
deformada. Em tais situações, é como se o médium ficasse na posição
de mero assistente de uma cena de exaltação e a descrevesse
friamente, em voz monótona e emocionalmente distante dos
problemas que lhe são trazidos. E preciso considerar, no entanto,
que ali está uma pessoa angustiada por pressões íntimas das mais
graves e aflitivas, muitas vezes em real estado de desespero, que
vem em busca de socorro para seus problemas, ainda que não o
admita conscientemente. Não é uma vaga e despersonalizada entidade,
uma simples abstração, mas um espírito que se manifesta.


É um ser humano, vivo, sofrido, desarvorado, que está precisando
falar com alguém que o ouça, que sinta seu problema pessoal, que
o ajude a sair da crise em que mergulhou, que partilhe com ele
suas dores, que lhe proporcione, por alguns momentos, o abrigo
de um coração fraterno. O médium frio e com todos os seus freios
aplicados à manifestação não consegue transmitir a angústia que ,<
vai naquela alma. E um bloco de gelo através do qual não circulam
as emoções do manifestante, a pungência de seu apelo, a ânsia
que ele experimenta em busca de amor e compreensão. Nenhum
problema é maior, naquele instante, para o manifestante
do que o seu, nenhuma dor mais aguda do que a sua. Dizíamos há
pouco que a médium permitia que o manifestante se expressasse
a seu modo, mas, a rigor, ela simplesmente não sabia trabalhar de
outra maneira. A entidade parecia assumir seus comandos mentais
e utilizar-se, com naturalidade, de seu corpo físico. Se havia
alguma ação inibidora ou controladora da parte da médium, era
em nível de consciência extrafísica. E, certamente, era isso que se
dava, pois nunca houve qualquer distúrbio ou excesso nas manifestações que ocorriam por sua intermediação.


No entanto, o dirigente exigia que o médium transmitisse
tudo na rígida postura de um robô, que leva a palavra de um lado
para outro, mas não admite que se filtrem, também, as emoções
que elas contêm e que as impulsionam.

Quando isso ocorre, o que chega ao dirigente ou doutrinador
não é aquilo que partiu do manifestante e, sim, aversão pasteurizada
e impessoal que o médium lhe transmitiu, como se fosse nm
mero  telefone. O espírito nem consegue sentir, no ser
que utiliza como instrumento, um pouco de emparia, de solidariedade,
de fraternidade, de emoção participante, de calor humano.

É nisso que resulta a excessiva e tão decantada passividade...
E para esse tipo de passividade nossa jovem não estava preparada.
Daí os problemas com os métodos da casa e, obviamente,
com os dirigentes do trabalho."

"Diversidade dos Carismas", Hermínio Miranda

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"PRIMEIROS PASSOS"



"Não alcançara, é certo, nenhum dos seus propósitos iniciais,
mas, ao cabo de um dia inteiro de expectativa e obstinação, conseguira, pelo menos, sair dali com um tímido raio de esperança
materializado na carta que, como chave mágica, deveria abrir
uma porta e pela qual ela esperava penetrar naquele universo diferente
e um tanto secreto, onde suas faculdades seriam, afinal,
cultivadas e postas a serviço de uma causa nobre.


Na segunda-feira seguinte, à noitinha, partiu em busca do endereço
indicado. Entregou a carta ao seu destinatário, que a leu
e mandou-a sentar-se e assistir aos trabalhos da noite, que aliás
não eram de natureza mediúnica, mas uma palestra a ser proferida
por um homem que ela conhecia apenas de nome.


Muitos problemas teria ali, na difícil fase de adaptação que se
seguiria, mas isto ainda era futuro, impenetrável até mesmo às
suas faculdades premonitórias.


Aquela noite, contudo, ficou marcada para sempre em sua
memória por um verdadeiro sismo emocional, que a colocaria
em estado de intensa agitação íntima e lhe deixaria uma sequela
de muitos conflitos. E que, no orador da noite, ela identificou a
figura central de suas vidências e sonhos, durante os quais çenasj
emocionantes eram revividas com toda a intensa carga emocional
que nelas se depositara. Era ele o homem amado do passado,
companheiro de muitas vidas, de felicidade, algumas, de frustrações
e de tormentos, outras. Naquela altura, porém, estava de
partida para os Estados Unidos, para onde seguiu, pouco depois,
em viagem de estudos. Somente ao retornar, meses depois, voltou
a procurar o centro que lhe fora indicado sob circunstâncias tão
complexas para ser orientada no trabalho que esperava realizar.
Longe de ter chegado ao termo das suas dificuldades - disto
ela sabería mais tarde -, elas apenas começavam. Se lhe fora exigida
uma cota tão elevada de tenacidade e decisão apenas para
que lhe indicassem um caminho, seria agora necessário acrescentar
paciência e até humilde resignação à sua obstinação em
servir da maneira adequada à causa que desejava adotar.

É certo que o centro, ao qual fora encaminhada, dispunha de
boa estrutura administrativa, desempenhava importantes tarefas
de natureza social, doutrinária e mediúnica. E como era de
se esperar, desenvolvera severos padrões de disciplina e de metodologia para cada setor de atividade, o que é perfeitamente
compreensível e até desejável. Como realizar um trabalho sério
numa comunidade movimentada e bem frequentada sem regimentos
adequados e normas apropriadas de procedimento?

Cada um tem de saber o que deve fazer e precisa dar conta da
parte que lhe toca no conjunto.

O problema é que a tarefa mediúnica tem peculiaridades que
não se deixam enquadrar na rigidez de certos esquemas inibidores.
Claro que seu exercício precisa obedecer a uma disciplina
operacional suficientemente severa para coibir desvios e ficar ao
abrigo de influências negativas próprias do médium ou provocadas
por terceiros. Mesmo nos limites de tal rigidez, é necessário
deixar algum espaço para que cada médium possa movimentar
seus recursos e faculdades pessoais, bem como expressar, de maneira
adequada, a personalidade do eventual comunicante desencarnado.
Sob esse aspecto, quase se poderia dizer que não há
mediunidade, e sim médiuns.

A mediunidade é a expressão da sensibilidade do médium,
seu instrumento de trabalho, e, como faculdade humana, guarda
características pessoais, como o modo de caminhar, o tom da
voz, a impressão digital, o feitio e ordenação da letra, o temperamento
de cada um. Precisa ser disciplinada sem ser deformada,
respeitando-se o contexto da personalidade humana no qual ela
ocorre. É desastroso tentar impor condições inaceitáveis às suas
manifestações.

Esse equívoco de abordagem ocorre com grande parte dos
cientistas que em suas pesquisas procuram impor à fenomenologia
psíquica em geral, e à mediunidade em particular, padrões
e metodologia de trabalho totalmente inadequados, que na
maioria das vezes frustram o processo de observação e produzem
resultados insatisfatórios. Quem se dispõe a trabalhar com
fenômenos produzidos pelo psiquismo humano deve se preparar
para respeitar as regras do jogo, decidindo, antes, que tipo de
metodologia é aplicável ao estudo que pretende realizar. Se não
existe, precisará criá-la; e antes de experimentar os fenômenos
em si, testar a própria metodologia desenvolvida para a pesquisa.
Isso porque se torna imperioso deixar espaço e condições para
que o fenômeno se produza tão espontaneamente quanto possí­
vel, ainda que sob condições de controle observacional. O cientista,
tanto quanto o dirigente de trabalhos mediúnicos, deve ser
um bom observador, dotado de espírito crítico alertado, e ter o
bom-senso de interferir o mínimo possível - apenas o suficiente
para ordenar a sequência de tarefas e coordenar as atividades
que se desenrolam sob suas vistas. Deve, portanto, ser um observador
participante, certo, mas nunca inibidor., pois ele está all
precisamente para fazer com que as coisas aconteçam e não para _
impedi-las ou forçá-las a ocorrerem da maneira exata pela qual
ele entende que devam ocorrer. „

Não é muito diferente desta a maneira de pensar de André
Luiz, expressa em "Evolução em dois mundos", (Xavier, Francisco
C./Luiz, André 1973) onde se lê:
"Eminentes fisiologistas e pesquisadores de laboratório
procuraram fixar mediunidades e médiuns a nomenclaturas
e conceitos de ciência metapsíquica; entretanto o problema,
como todos os problemas humanos, é mais profundo, porque
a mediunidade jaz adstrita à própria vida, não existindo, por
isso mesmo, dois médiuns iguais, não obstante a semelhança no
campo das impressões..." (Os destaques são meus)

Logo a seguir, adverte André Luiz que até mesmo ‘espiritualistas
distintos’, que se julgam autorizados a apelar para os riscos
da mediunidade - a fim de impedir-lhe a eclosão e, por conseguinte,
os serviços que pode prestar - estão sendo influenciados
por via mediúnica, traduzindo “interpretações particulares de
inteligências desencarnadas que os assistem”. Ou seja, estão atuando
como inconscientes joguetes de vontades estranhas à sua.


Os médiuns são sensíveis não apenas aos seres desencarnados,
mas também às pressões e sentimentos, mesmo não expressos,
das pessoas encarnadas que os cercam durante o trabalho. Harry
Boddington (The university o f spiritualism), ao qual estaremos
recorrendo com alguma frequência neste estudo, acha até que os
médiuns são mais sensíveis às pressões dos encarnados do que às
dos desencarnados.


“Extrema elasticidade” - escreve o competente autor inglês
- “deve ser adotada na aplicação de todas as teorias relativas aos
fenômenos psíquicos.”


Isto não quer dizer, obviamente, que o médium possa e deva fazer
ou permitir que se faça com ele tudo o que vier à sua cabeça ou
à do manifestante, mas é preciso garantir condição suficiente para
que o fenômeno ocorra dentro da dinâmica que lhe é própria.


Esse princípio é válido para qualquer grupamento de pessoas,
até mesmo quando reunidas para finalidades meramente sociais
ou de trabalho material, estudo, debates, ou o que seja. Pessoas
agressivas, amarguradas, mal humoradas, pouco educadas causam
transtornos em qualquer reunião, o que não ocorre quando
os componentes de um grupo se harmonizam, 
respeitam-se mutuamente e debatem os problemas com serenidade e bom-senso, ainda que divergindo neste ou naquele aspecto."

"Diversidade dos Carismas", Hermínio Miranda

sábado, 16 de setembro de 2017

"MEDIUNIDADE ESTÁTICA"

 "A Mediunidade é uma só, é um todo, mas pode ser encarada em seus vários aspectos funcionais, que são caracterizados como formas variadas de sua manifestação. Kardec a dividiu, para efeito metodológico, em duas grandes áreas bem diferenciadas: a mediunidade de efeitos inteligentes e amediunidade de efeitos físicos. Essa divisão prevaleceu nas ciências derivadas do Espiritismo. Charles Richet, fundador da Metapsíquica, estabeleceu nessa ciência a divisão das duas áreas com os nomes de metapsíquica subjetiva e metapsíquica objetiva, correspondendo exatamente à divisão espírita. Na Parapsicologia atual, fundada por Rhine e McDougal, as duas áreas figuram com as denominações de: Psigama (de fenômenos subjetivos ou mentais) e Psicapa (de fenômenos objetivos ou de efeitos físicos). A chamada Ciência Psíquica Inglesa, como a antiga Parapsicologia Alemã, a Psicobiofísica de Schrenk-Notzing e outras várias escolas científicas mantiveram essa divisão, o que prova o acerto metodológico de Kardec. A expressão médium também prevaleceu, chegando até mesmo à Parapsicologia Soviética, materialista, que a conserva em suas publicações oficiais. Só alguns ramos científicos sofisticados, como a Metergia e a Psicorragia inventaram substitutivos para a cómoda e clara palavra médium, mas que não vulgarizaram. Na Metergia o médium se chama metérgico e na Psicorragia se chama psicorrágico. Palavrões científicos só usados por alguns médiuns pedantes que não querem dizer-se médiuns. As denominações dadas pela Parapsicologia atual não são pedantescas. São simples nomes de letras do alfabeto grego, tradicionalmente empregados nas Ciências para designação de fenómenos. Também não é verdade que a Parapsicologia atual tenha dado outros nomes aos fenómenos para se diferenciar do Espiritismo. O problema é outro: na pesquisa científica não se podem usar designações que impliquem interpretação antecipada do fenómeno. Escolhendo letras gregas para designar os fenómenos a ser investigados, os parapsicólogos usavam palavras neutras, como exige a metodologia científica. Uma questão de método. Apesar desse critério, a palavra sensitivo, por exemplo, escolhida para substituir médium, já foi abandonada por vários parapsicólogos, que voltaram à expressão médium, como vimos no caso soviético. 

A terminologia espírita adotada por Kardec é simples e precisa. Mas no tocante às duas áreas fundamentais dos fenómenos de efeitos inteligentes e efeitos físicos, era necessário um acréscimo. Além dessa divisão fenoménica, havia o problema da divisão funcional. Kardec notou a generalização da mediunidade e os espíritos o socorreram, como se vê no "Livro dos Médiuns", com uma especificação curiosa. Temos assim duas áreas de função mediúnica, designadas como mediunidade generalizada e mediunato. A primeira corresponde à mediunidade natural, que todos os seres humanos possuem, e a segunda corresponde à mediunidade de compromisso, ou seja, de médiuns investidos espiritualmente de poderes mediúnicos para finalidades específicas na encarnação. Como Kardec mencionou a existência de médiuns elétricos e várias vezes comparou a mediunidade com a eletricidade, surgiu mais tarde entre alguns estudiosos, entre os quais Crawford, a idéia de uma divisão mais explícita, com a designação de mediunidade estática e mediunidade dinâmica. A primeira corresponde à mediunidade natural que todos possuem e permanece geralmente em estase, com manifestações moderadas e quase imperceptíveis. A segunda corresponde à mediunidade ativa, que exige desenvolvimento e aplicação durante toda a vida do médium. 

A falta de conhecimento dessa divisão acarreta dificuldades e inconvenientes na prática mediúnica, particularmente rios trabalhos de Centros e Grupos. A mediunidade estática não é propriamente uma forma de energia que permanece no organismo corporal em estado letárgico. É simplesmente a disposição natural do espírito para expandir-se,projetar-se e entrar em relação com outros espíritos. A Parapsicologia atual confirmou a tese espírita das relações telepáticas permanentes na vida social. Nossa mente funciona, segundo acentua John Ehrenwald em seu estudo sobre relações interpessoais, como ativo centro emissor e receptor de pensamentos. Estamos sempre conversando sem o perceber. Muitos dos nossos monólogos são diálogos com outras pessoas ou com espíritos. Mensagens de Emmanuel e André Luiz, através de Chico Xavier, referem-se a inquirições mentais que certos espíritos nos fazem, seja para avaliar o nosso estado mental e ajudar-nos a corrigi-lo, seja para fins obsessivos. Um obsessor se aproxima de nós e sugere mentalmente o nome ou a figura de uma pessoa. Começamos a pensar nessa pessoa e a desfilar na mente os dados que possuímos sobre ela. O obsessor insiste e nós, sem percebermos, vamos lhe dando a ficha da pessoa ou as nossas opiniões sobre ela. Ajudamos o obsessor sem saber. De outras vezes ele pretende saber qual é a nossa posição em determinado caso de desentendimento a respeito de um seu amigo. Nós a revelamos e ele passa a envolver-nos num processo obsessivo. Por isso Jesus aconselhou: " Vigiai e orai" . Devemos vigiar os nossos pensamentos e orar por aqueles que consideramos em erro. Se fizermos assim certamente nos livraremos de muitas perturbações e muitos aborrecimentos desnecessários. Os solilóquios do homem são sempre observados pelas testemunhas invisíveis, boas e más, que nos cercam. A mediunidade estática funciona como imanente em nosso psiquismo. Faz parte da nossa natureza, não é uma graça nem uma prova, é um elemento essencial da nossa constituição humana. 

Recorrem às casas espíritas muitas pessoas perturbadas e até mesmo obsedadas, que em geral são consideradas como médiuns em fase de desenvolvimento. 

Muitas delas são apenas vítimas de perseguição de espíritos inferiores, resultantes de inquirições mentais. Por esse ou outros motivos, essas criaturas estão realmente envolvidas num processo de obsessão, mas não são médiuns em desenvolvimento. Precisam de passes, de participação nas sessões, mas não de sentar-se à mesa mediúnica para desenvolver mediunidade. Essas pessoas, tratadas devidamente, livram-se da obsessão mas não revelam mais os sintomas mediúnicos decorrentes da obsessão. 

Essas pessoas não estão investidas de mediunato, não precisam e nem podem desenvolver a sua mediunidade estática. Esta lhe serve para guiar-se na vida através de intuições e percepções extra-sensoriais. A obsessão ocasional, por sua vez, serviu para aproximá-la do Espiritismo, despertar-lhe ou reanimar-lhe o sentimento religioso, encaminhá-la num sentido mais elevado em sua maneira de viver, na busca de sintonias mentais benéficas e não prejudiciais. 

As pessoas não dotadas de mediunato não estão desprovidas dos recursos mediúnicos. Pelo contrário, podem ser muito sensíveis e intuitivas, dispondo de percepções eficazes em todas as circunstâncias. Os dirigentes de sessões não podem esquecer esse problema, que lhes evitará muitos enganos no trato das manifestações mediúnicas. As obsessões não são produzidas apenas por espíritos. Há muitos casos de obsessões telepáticas, provocadas por pessoas vivas. Kardec tratou desses casos referindo-se à telepatia como telegrafia humana. Sentimentos de aversão, de ódio, de vingança, acompanhados de pensamentos agressivos, podem dar a impressão de verdadeiros processos de obsessão por espíritos inferiores. Estes geralmente se envolvem em tais casos e manifestam-se nas sessões com suas costumeiras bravatas, passando como os responsáveis por perturbações em que apenas se intrometeram. Eliminando o processo telepático, esses espíritos se afastam, sentem-se impotentes para prosseguir na temerária empreitada. O Dr. Ehrenwald relata um caso da sua clínica psicanalítica, em que um rapaz era rejeitado pelos companheiros de pensão. A rejeição era oculta, pois todos fingiam apreciá-lo. Só a pesquisa do médico provou o que se passava. Afastando o paciente para outro meio, os sintomas obsessivos desapareceram gradualmente, na proporção em que os algozes o esqueciam. Esse famoso médico  psicanalista, diante de casos dessa ordem, propôs a ampliação dos métodos de pesquisa parapsicológica com acréscimo dos métodos significativos da Psicologia dos métodos qualitativos da pesquisa espírita. Havia realmente chegado a hora em que a Parapsicologia atual devia superar o primarismo dos métodos de investigação puramente quantitativos, sob controle estatístico, para enfrentar o problema das consequências da ação telepática no meio social. Posteriormente a Profa. Louise Rhine, esposa e colaboradora do Prof. Rhine, publicava seu livro "Os Canais Ocultos da Mente", relatando pesquisas de campo sobre os fenômenos paranormais. Alegava que as pesquisas de laboratório eram demasiadamente frias despojavam os fenómenos de sua riqueza emocional seu significado. O livro da Senhora Rhine apresenta uma seqüência impressionante de casos essencialmente espíritas.

 Todos os rios levam suas águas para o mar. Todas as ciências psíquicas desembocam fatalmente no delta do Espiritismo. Não podemos desprezar as suas pesquisas e as suas conclusões. Os parapsicólogos verdadeiros, que são cientistas universitários, não devem ser confundidos com sacerdotes inconscientes que apresentam ao público uma deformação sectária e intencional da Parapsicologia. Esses padres, frades e pastores que tripudiam sobre a ignorância e a ingenuidade do povo, são acionados por interesses materiais evidentes e por entidades espirituais inferiores, que servem da mediunidade estática deles mesmos para levá-los a campanhas inglórias e a explorações deploráveis da boa-fé dos fiéis. Mas a verdade é que estão nas malhas da mediunidade que negam e combatem. A mediunidade estática dorme nas suas próprias entranhas, à espera de que se tornem capazes de percebê-la e compreendê-la. 

Na linha natural dos processos de percepção, a mediunidade estática aflora, às vezes, dadas as circunstâncias favoráveis, numa eclosão semelhante ao desenvolvimento mediúnico. Há casos de premonição que surgem de perigo eventual, casos de vidência passageira, que parecem sintomas de mediunato em eclosão. É difícil saber-se de imediato, o que se passa, principalmente em virtude do estado emocional dos pacientes. Mas basta uma observação paciente, com a frequência a sessões mediúnicas, para logo se verificar que se trata apenas de ocorrências isoladas e ocasionais. 

A mediunidade estática tende sempre a voltar à sua acomodação no psiquismo normal. O que às vezes complica essas ocorrências passageiras é a insistência no desenvolvimento mediúnico ou as aplicações terapêuticas de choques e dosagens excessivas de drogas nos receituários médicos."

"Mediunidade- Vida e Comunicação", José Herculano Pires 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"CONCEITO DE MEDIUNIDADE"

"Médium quer dizer medianeiro, intermediário. Mediunidade é a faculdade humana, natural, pela qual se estabelecem as relações entre homens e espíritos. Não é um poder oculto que se possa. desenvolver através depráticas rituais ou pelo poder misterioso de um iniciado ou de um guru. A Mediunidade pertence ao campo da comunicação. Desenvolve-se naturalmente nas pessoas de maior sensibilidade para a captação mental e sensorial de coisas e fatos do mundo espiritual que nos cerca e nos afeta com as suas vibrações psíquicas e afetivas. Da mesma forma que a inteligência e as demais faculdades humanas, a Mediunidade se desenvolve no processo de relação. Geralmente o seu desenvolvimento é cíclico, ou seja, processa-se por etapas sucessivas, em forma de espiral. As crianças a possuem, por assim dizer, à flor da pele, mas resguardada pela influência benéfica e controladora dos espíritos protetores, que as religiões chamam de anjos da guarda. Nessa fase infantil as manifestações mediúnicas são mais de caráter anímico; a criança projeta a sua alma nas coisas e nos seres que a rodeiam, recebem as intuições orientadoras dos seus protetores, às vezes vêem e denunciam a presença de espíritos e não raro transmitem avisos e recados dos espíritos aos familiares, de maneira positiva e direta ou de maneira simbólica e indireta. Quando passam dos sete ou oito anos integram-se melhor no condicionamento da vida terrena, desligando-se progressivamente das relações espirituais e dando mais importância às relações humanas. O espírito se ajusta no seu escafandro para enfrentar os problemas do mundo. Fecha-se o primeiro ciclo mediúnico, para a seguir abrir-se o segundo. Considera-se então que a criança não tem mediunidade, a fase anterior é levada à conta da imaginação e da fabulação infantis. 

É geralmente na adolescência, a partir dos doze ou treze anos, que se inicia o segundo ciclo. No primeiro ciclo só se deve intervir no processo mediúnico com preces e passes, para abrandar as excitações naturais da criança, quase sempre carregadas de reminiscências estranhas do passado carnal ou espiritual. Na adolescência o seu corpo já amadureceu o suficiente para que as manifestações mediúnicas se tornem mais intensas e positivas. É tempo de encaminhá-la com informações mais precisas sobre o problema mediúnico. Não se deve tentar o seu desenvolvimento em sessões, a não ser que se trate de um caso obsessivo. Mas mesmo nesse caso é necessário cuidado para orientar o adolescente sem excitar a sua imaginação, acostumando-o ao processo natural regido pelas leis do crescimento. O passe, a prece, as reuniões para estudo doutrinário são os meios de auxiliar o processo sem forçá-lo, dando-lhe a orientação necessária. Certos adolescentes integram-se rápida e naturalmente na nova situação e se preparam a sério para a atividade mediúnica. Outros rejeitam a mediunidade e procuram voltar-se apenas para os sonhos juvenis. É a hora das atividades lúdicas, dos jogos e esportes, do estudo e aquisição de conhecimentos gerais, da integração mais completa na realidade terrena. Não se deve forçá-los, mas apenas estimulá-los no tocante aos ensinos espíritas. Sua mente se abre para o contato mais profundo e constante com a vida do mundo. Mas ele já traz na consciência as diretrizes próprias da sua vida, que se manifestarão mais ou menos nítidas em suas tendências e em seus anseios. Forçá-lo a seguir um rumo que repele é cometer uma violência de graves conseqüências futuras. Os exemplos dos familiares influem mais em suas opções do que os ensinos e as exortações orais. Ele toma conta de si mesmo e firma a sua personalidade. É preciso respeitá-lo e ajudá-lo com amor e compreensão. No caso de manifestações espontâneas da mediunidade é conveniente reduzi-las ao círculo privado da família ou de um grupo de amigos nas instituições juvenis, até que sua mediunidade se defina, impondo-se por si mesma. 

O terceiro ciclo ocorre geralmente na passagem da adolescência para a juventude, entre os dezoito e vinte e cinco anos. É o tempo, nessa fase, dos estudos sérios do Espiritismo e da Mediunidade, bem como da prática mediúnica livre, nos centros e grupos espíritas. Se a mediunidade não se definiu devidamente, não se deve ter preocupações. Há processos que demoram até a proximidade dos 30 anos, da maturidade corporal, para a verdadeira eclosão da mediunidade. Basta mantê-lo em ligação com as atividades espíritas, sem forçá-lo. Se ele não revela nenhuma tendência mediúnica, o melhor é dar-lhe apenas acesso a atividades sociais ou assistenciais. As sessões de educação mediúnica (impropriamente chamadas de desenvolvimento) destinam-se apenas a médiuns já caracterizados por manifestações espontâneas, portanto já desenvolvidos. 

Há ainda um quarto ciclo, correspondente a mediunidades que só aparecem após a maturidade, na velhice ou na sua aproximação. Trata-se de manifestações que se tornam possíveis devido às condições da idade: enfraquecimento físico, permitindo mais fácil expansão das energias perispiríticas; maior introversão da mente, com a diminuição de atividades da vida prática, estado de apatia neuropsíquica, provocado pelas mudanças orgânicas do envelhecimento. Esses fatores permitem maior desprendimento do espírito e seu relacionamento com entidades desencarnadas. Esse tipo de mediunidade tardia tem pouca duração, constituindo uma espécie de preparação mediúnica para a morte. Restringe-se a fenômenos de vidência,comunicação oral, intuição, percepção extrasensorial e psicografia. Embora seja uma preparação, a morte pode demorar vários anos, durante os quais o espírito se adapta aos problemas espirituais com que não se preocupou no correr da vida. Esses fatos comprovam o conceito de mediunidade como simples modalidade do relacionamento homem-espírito. Kardec lembra que o fato de o espírito estar encarnado não o priva de relacionar-se com os espíritos libertos, da mesma maneira que um cidadão encarcerado pode conversar com um cidadão livre através das grades. Não se trata das conhecidas visões de moribundos no leito mortuário, mas de típico desenvolvimento tardio de mediunidade que, pela completa integração do indivíduo na vida carnal, imantado aos problemas do dia-a-dia, não conseguiu aflorar. A sua manifestação tardia lembra o adágio de que os extremos se tocam. A velhice nos devolve à proximidade do mundo espiritual, em posição semelhante à das crianças. 

Na verdade, a potencialidade mediúnica nunca permanece letárgica. Pelo contrário, ela se atualiza com mais freqüência do que supomos, passa de potência a ato em diversos momentos da vida, através de pressentimentos, previsões de acontecimentos simples, como o encontro de um amigo há muito ausente, percepções extra-sensoriais que atribuímos à imaginação ou à lembrança e assim por diante. Vivemos mediunicamente, entre dois mundos e em relação permanente com entidades espirituais. Durante o sono, como Kardec provou através de pesquisas ao longo de mais de dez anos,desprendemo-nos do corpo que repousa e passamos ao plano espiritual. Nos momentos de ausência psíquica de distração, de cochilo, distanciamo-nos do corpo rapidamente e a ele retornamos como o pássaro que voa e volta ao ninho. A Psicologia procura explicar esses lapsos fisiologicamente, mas as reações orgânicas a que atribui o fato não são causa e sim efeito de um ato mediúnico de afastamento do espírito. Os estudos de Hipnotismo comprovam isso, mostrando que a hipnose interfere constantemente em nossa vigília, fazendo-nos dormir em pé e sonhar acordados, como geralmente se diz. A busca científica de uma essência orgânica da mediunidade nunca deu nem dará resultados. Porque a mediunidade tem sua essência na liberdade do espírito. 

Chegando a este ponto podemos colocar o problema em termos mais precisos: a mediunidade é a manifestação do espírito através do corpo. No ato mediúnico tanto se manifesta o espírito do médium como um espírito ao qual ele atende e serve. Os problemas mediúnicos consistem, portanto, simplesmente nadisciplinação das relações espírito-corpo. É o que chamamos de educação mediúnica. Na proporção em que o médium aprende, como espírito, a controlar a sua liberdade e a selecionar as suas relações espirituais, sua mediunidade se aprimora e se torna segura. Assim o bom médium é aquele que mantém o seu equilíbrio psicofísico e procede na vida de maneira a criar para si mesmo um ambiente espiritual de moralidade, amor e respeito pelo próximo. A dificuldade maior está em se fazer o médium compreender que, para tanto, não precisa tornar-se santo, mas apenas um homem de bem. Os objetivos de santidade perseguidos pelas religiões, através dos milênios, gerou no mundo uma expectativa incômoda para todos os que se dedicam aos problemas espirituais. Ninguém se torna santo através de sufocação dos poderes vitais do homem e adoção de um comportamento social de aparência piedosa. O resultado disso é o fingimento, a hipocrisia que Jesus condenou incessantemente nos fariseus, uma atitude permanente de condescendência e bondade que não corresponde às condições íntimas da criatura. O médium deve ser espontâneo, natural, uma criatura humana normal, que não tem motivos para se julgar superior aos outros. Todo fingimento e todo artifício nas relações sociais leva os indivíduos à falsidade e à trapaça. A chamada reforma-íntimaesquematizada e forçada não modifica ninguém, apenas artificializa enganosamente os que a seguem. As mudanças interiores da criatura decorrem de suas experiências na existência, experiências vitais e consciências que produzem mudanças profundas na visão íntima do mundo e da vida. 

Essa colocação dos problemas mediúnicos sugere um conceito da mediunidade que nos leva às próprias raízes do Espiritismo. A Mediunidade nos aparece como o fundamento de toda a realidade. O momento do fiat, da Criação do Cosmos, é um ato mediúnico. Quando o espírito estrutura a matéria para se manifestar na Criação, constrói o elemento intermediário entre ele e a realidade sensível ou material. A matéria se torna o médium do espírito. Assim, a vida é uma permanente manifestação mediúnica do espírito que, por ela, se projeta e se manifesta no plano sensível ou material. O Inteligível, que é o espírito, oprincípio inteligente do Universo, dá a sua mensagem inteligente através das infinitas formas da Natureza, desde os reinos mineral, vegetal e animal, até o reino hominal, onde a mediunidade se define em sua plenitude. A responsabilidade do Homem, da Criatura Humana, expressão mais elevada do Médium, adquire dimensões cósmicas. Ele é o produto multimilenar da evolução universal e carrega em sua mediunidade individual o pesado dever de contribuir para que a Humanidade realize o seu destino cósmico. A compreensão deste problema é indispensável para que os médiuns aprendam a zelar pelas suas faculdades."

"Mediunidade - Vida e Comunicação", José Herculano Pires

domingo, 10 de setembro de 2017

"PERANTE A VIDA"


       "Em verdade, o sistema solar — vasto e sublime edifício, de que somos reduzido apartamento — é um império maravilhoso de luz e de vida, cuja grandeza mal começamos a perceber.
       Basta lembrar que a sede rutilante desse largo domínio cósmico, representada pelo divino astro do dia, detém o volume correspondente a um milhão e trezentas mil Terras reunidas, e basta recordar que Júpiter, o filho mais importante do Sol, é mais de mil vezes maior que o nosso Planeta.
       Mas, não é somente a massa comparada desses gigantes do Espaço, que precisamos examinar para definir, com segurança, a nossa pequenez.
       Reportemo-nos, igualmente, às distâncias, recordando que Marte, o nosso vizinho mais próximo, quando menos afastado do educandário em que estagiamos, movimenta-se a cinquenta e seis milhões de quilômetros de nós, oferecendo-nos justas reflexões quanto aos estreitos limites de nossa casa terrestre.
       Registre-se ainda que o nosso Sistema, ante a amplidão ilimitada, é insignificante domicílio na cidade imensa da Via-Láctea, na qual milhões de sóis, transportando consigo milhões de mundos, tanto quanto nos ocorre, procuram, através do movimento e do trabalho incessantes, a comunhão com a indefinível Majestade de Deus.
       Veja, Sírius, Canopus e Antares, sóis resplendentes, junto dos quais o nosso não passará de ponto obscuro, à maneira de lâmpada humilde no coro da imortalidade, constituem palácios suspensos, onde a beleza e a perfeição adquirem aspectos inabordáveis, ainda, ao nosso campo de expressão.
       Todavia, é preciso calar, de algum modo, o êxtase que nos assalta, ante a magnificência do Universo, para atender às obrigações que o mundo nos exige.
       Somos demasiadamente pequeninos para arrojar ao Cosmo o escalpelo de nossas indagações descabidas.
       Aves implumes no ninho da vida eterna, achamo-nos, ainda, muito longe das asas com que ultrapassaremos nossas justas e compreensíveis limitações.
       Por isso mesmo, embora aguardando a celeste herança que nos é destinada no curso dos milênios, busquemos construir a casa de nossos destinos sobre a Rocha do Amor, — Jesus Cristo, — o Sol Espiritual que nos acalenta e soergue para o grande futuro.
       Antes da ascensão a outras esferas, atendamos à necessidades de nossa própria moradia.
       Melhoremo-nos para que a nossa residência melhore.
       Ajudemo-nos, uns aos outros, para que a vida, em nosso plano, se faça menos dolorosa e menos inquietante..
       E, convertendo nosso mundo, pouco a pouco, no santuário vivo em que Jesus se manifeste, estejamos convictos de que a Terra, hoje escura, amanhã se transformará no espelho divino em cuja face a glória de Deus se refletirá.
“Intervalos”, Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

sábado, 9 de setembro de 2017

"UMA VOLTA DA FORTUNA"

"Lê-se no Siècle, de 5 de junho de 1864: 

“Um berlinense, Sr. X..., possuía uma grande fortuna. Seu pai, ao contrário, em consequência de revezes, tinha caído numa pobreza absoluta e tinha sido forçado a recorrer à generosidade de seu filho. Este repeliu duramente a solicitação do velho que, para não morrer de fome, teve que recorrer à justiça. O Sr. X... foi condenado a fornecer ao pai uma pensão alimentícia. Mas o Sr. X... tinha tomado suas precauções. Pressentindo que se se recusasse a pagá-la, seria feita uma investigação em seus rendimentos, tomou a decisão de ceder sua fortuna a um tio paterno. 

“Assim, o infeliz pai viu fugir-lhe a última esperança. Protestou que a cessão era fictícia e que seu filho tinha recorrido a ela para se furtar à execução da sentença. Mas ele teria que prová-lo; o velho, entretanto, não tinha condições para intentar um processo custoso, pois lhe faltavam as coisas mais necessárias à subsistência. 

“Um acontecimento imprevisto veio tudo mudar. O tio morreu subitamente, sem testamento. Como ele não tinha família, a fortuna coube, de direito, ao parente mais próximo, isto é, ao seu irmão. 

“Compreende-se o resto. Hoje, os papéis estão invertidos. O pai está rico e seu filho, pobre. O que, sobretudo, deve aumentar o desespero deste último é que ele não pode invocar o fato de uma cessão fictícia, pois a lei interdita formalmente esse gênero de transações.” 

Dir-se-ia que se sempre fosse assim com o mal, melhor seria compreendida a justiça do castigo; sabendo o culpado por que é punido, saberia do que se deve corrigir. 

Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se pensa. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a consciência natural de alguma falta cometida. A cada instante recebe o homem terríveis lições, das quais, infelizmente, tira pouco proveito. Enceguecido pela paixão, ele não vê a mão de Deus que o fere. Longe de reconhecer-se culpado por seus próprios infortúnios, ele os atribui à fatalidade, à sua má sorte; irrita-se muito mais frequentemente do que se arrepende, e não nos surpreenderíamos se o filho do qual se fala acima, em vez de ter reconhecido seus erros para com o pai; em vez de voltar a ter melhores sentimentos para com ele, não tivesse concebido contra ele mais animosidade. Ora, o que é que Deus pede ao culpado? O arrependimento e a reparação voluntária. 

Para motivá-lo a isso, ele multiplica em seu redor os avisos sob todas as formas, durante sua vida: desgraças, decepções, perigos iminentes, numa palavra, tudo o que é próprio a fazê-lo refletir. Se, a despeito disto, seu orgulho resiste, não é justo seja punido mais tarde? Grave erro é pensar que o mal fique algumas vezes completamente impune na vida atual. Se soubéssemos tudo quanto acontece ao mau, aparentemente o mais próspero, ficaríamos convencidos da verdade de que não há uma única falta nesta vida, uma só inclinação má, digamos mais, um só mau pensamento que não tenha sua contrapartida. Deduz-se daí que, consequentemente, se o homem aproveitasse os avisos que recebe; se ele se arrependesse e reparasse suas faltas ainda nesta vida, teria satisfeito à justiça de Deus e não teria mais que expiar e reparar, quer no mundo dos Espíritos, quer em nova existência. Se há, portanto, aqueles que nesta vida sofrem as consequências de sua existência anterior, é que eles têm a pagar uma dívida que não saldaram. Se o filho em questão morrer na impenitência, sofrerá, a princípio, no mundo dos Espíritos, o castigo do remorso; sofrerá moralmente o que fez sofrer materialmente; será um Espírito infeliz, porque terá violado a lei que lhe dizia: Honra teu pai e tua mãe. Mas Deus, que é soberanamente bom e, ao mesmo tempo, soberanamente justo, permitir-lhe-á reencarnar-se para reparar; talvez lhe dê o mesmo pai, e, em sua bondade, lhe poupe a humilhante lembrança do passado. Entretanto, o culpado trará consigo a intuição das resoluções que tiver tomado e a vontade de fazer o bem, em vez do mal. Será a voz da consciência que lhe ditará a conduta. Depois, quando voltar ao mundo dos Espíritos, Deus lhe dirá: Vem a mim, meu filho, tuas faltas estão apagadas. Mas, se ele falhar nessa nova prova, terá que recomeçar, até que se tenha despojado inteiramente do homem velho. 

Cessemos, portanto, de ver nas misérias que sofremos por faltas de uma existência anterior um mistério inexplicável, e digamos que de nós depende evitálas, merecendo o perdão desde esta vida. Saldadas nossas dívidas, Deus não nos fará pagá-las segunda vez. Mas, se ficarmos surdos a seus avisos, então ele exigirá até o último ceitil, ainda que após séculos ou milhares de anos. Para isto ele não exige vãos simulacros, mas a reforma radical do coração. A morada dos eleitos só é aberta aos Espíritos purificados. Qualquer mancha interdita o seu acesso. Todos podem pretendê-lo, mas a cada um cabe fazer o que é necessário para lá chegar, mais cedo ou mais tarde, conforme seus esforços e sua vontade. No entanto, Deus a ninguém diz: Não te purificarás!"


"Revista Espírita", Outubro de 1864