terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"SOMBRAS E LUAR"

"Dramas rudes...

Há momentos em que o coração na câmara torácica parece ter um punhal a
trespassá-lo.

Mente atordoada...

Há problemas que assomam em patética de receios e inquietações
produzindo febre n'alma e angústias de incertezas...

Dificuldades e incompreensões...

Há cipoal e sarçal à frente de quem avança, a multiplica espículos e
empeços como se tudo estivesse convertido em provações rudes e aguçadas
desesperações.

São sombras e ao mesmo tempo oportunidades que luzem.

*

Busca, porém, a prece e banha-te de luz...

O seu refrigério, aparentemente não te resolverá as situações, e, de
certo, não se modificarão a golpes de mágica as paisagens de sombra e
conflito...

Apesar disso, com sutileza, renasce a esperança, ressurge a coragem,
aplainam-se as arestas difíceis, e, passado algum tempo, raia dia novo de
júbilo no coração animado, na mente abençoada pela santificante presença do
Cristo a conduzir certezas.

Não depereças na dificuldade; eleva-te na oração e enriquece tuas
sombras de dor com luar de paz."

(“Heranças de Amor”, Eros/Divaldo P. Franco)

"PROTEÇÃO EDUCATIVA"

"No jardim da residência confortável da família Torres, palestravam duas entidades espirituais.

Ezequiel, esclarecido mensageiro e amigo desvelado, viera observar os serviços de Antonio junto àquele núcleo familiar, que os dois haviam tomado sob dupla guarda, em razão dos elos afetivos que os reuniam entre si, desde muitos séculos.

- Como seguem os nossos tutelados? – inquiriu o emissário que vinha de plano superior – compreendem agora a proteção divina? Com que esperança vivo refletindo na situação deles! Sabe você que muito devo a Malvina e a João, em face das minhas duras tarefas no pretérito... Tive a felicidade de adiantar-me na senda evolutiva; no entanto, não me seria possível esquecê-los.

O companheiro ouvia-lhe as expressões sem ocultar a profunda melancolia que lhe transparecia no rosto.

Ezequiel, todavia, dando curso às emoções sublimes do momento, prosseguiu:

- Congreguei meus velhos amigos com os adversários de outra época e espero que, transformados em pais e filhos no cadinho doméstico, possam agora avançar no rumo da paz que excele o humano entendimento. A gratidão não olvida os bens recebidos.

- É o que acontece igualmente entre nós ambos, meu caro – murmurou Antonio, comovido -, não posso apagar da lembrança o débito que me vincula à sua generosidade...

Como se não desejasse receber agradecimentos diretos, Ezequiel modificou a rota da conversação acrescentando:

- Malvina comporta-se bem na luta redentora?

O interpelado mostrou sinais de amargura no semblante abatido e respondeu:

- Não tem sabido enfrentar a facilidade e a abundância. Vive aflita sem causa e insatisfeita sem motivo.

- Com tantos recursos que lhe são conferidos? – interrogou o superior admirado.

- Infelizmente assim é.

- Há alguma enfermidade grave atormentando a família?

Esboçou Antonio significativo gesto e acentuou:

- Segundo sabemos, o corpo ocupado pela doente não pode acomodar-se com a saúde perfeita; mas, no círculo de minhas possibilidades, esforço-me, quanto possível, para que Malvina, João e os filhos estejam equilibrados. Nunca se levantam, cada manhã, sem que eu os assista com elementos fluídicos de medicação, e desse modo, tenho tido o prazer de vê-los, no trabalho comum que edifica sempre.

- É, porventura, insuficiente o salário que recebem?

- Quanto a isso – elucidou Antonio -, marcham na Terra em carro confortável e precioso. O chefe da casa dirige um escritório com remuneração excelente. José e Oscar, os dois filhos mais velhos, são altos empregados de uma oficina em Todos os Santos; Hermenegildo e Paulo, os dois menores, trabalham no centro urbano, com vencimento compensador.

- Sofrem alguma perseguição descabida?

- Desfrutam geral estima e, além disso, incumbo-me de auxilia-los diariamente, conforme suas recomendações, colaborando, indiretamente, na solução de todos os problemas que os interessam de perto.

- Possuem razão seria para desgostos íntimos?

Antonio sorriu e obtemperou:

- Não contam com motivos quaisquer para contrariedades fortes; entretanto, procuram-nos. Vivem nervosos e exasperados. O espírito materno é sempre a fonte de inspiração para o santuário domestico, e a posição atual de Malvina, nesse sentido, é das mais deploráveis. Tanto se queixou a nossa amiga que o marido e os filhos andam hoje contagiados do mesmo ma. Afirmam-se desprotegidos, cansados, desiludidos da sorte. Não há ensinamento que os esclareça, alegria que os alente ou remuneração que os satisfaça.

Ezequiel, preocupado, considerou, depois de longa pausa:

- Observarei pessoalmente.

Demandaram o interior, em atitude fraterna.

Era manhã e Dona Malvina, muito distante do governo do lar, mantinha-se em prosa comprida com uma senhora da vizinhança.

- Dona Amélia – comentava, gesticulando -, a senhora está muito enganada quanto à nossa situação. Meu esposo recebe ordenado miserável. Meus filhos não ganham para viver com decência. Já não sei como solucionar os presente enigmas financeiros. Estamos empenhados em armazéns e lojas. Ocasiões aparecem nas quais, francamente, não sei como me comportar.

- É estranho – clamava a interlocutora -, porquanto sempre supus a sua casa em ótimas condições.

- Eu? Nós? – tornava a protegida de Ezequiel – vivemos atolados em débitos pesados... Ah! Minha amiga, minha amiga! Enquanto João se esgota, morro aos bocadinhos, entre aflições de toda sorte. Somos muito infelizes!

Lamentações alongaram-se pelas horas a dentro.

E tão logo se despediu a vizinha, outra amiga apareceu, continuando Malvina no mesmo diapasão:

- Andava saudosa de sua palestra, minha boa Teresa! As pessoas atormentadas e sofredoras, assim como eu, necessitam ouvi-la.

- No entanto, Dona Malvina – objetava a amiga bondosa -, o seu aspecto é outro. Creio encontra-la muito forte e tranqüila...

- Eu, minha filha – respondia a senhora Torres, tornando a voz comovedora e mais tremula -, nunca sofri tanto, quanto agora... Não sei o que será de nós. Tudo está negro em nossos caminhos. No serviço, o esforço de João não é apreciado na devida conta e meus desventurados filhos se esfalfam inutilmente entre exigências indébitas dos administradores e vãs promessas de melhoria. Até onde iremos com as nossas provações amargas? Já não sei orar e tão grandes tem sido os nossos padecimentos que a fé me parece vazia, sem expressão...

Daí a instantes, enquanto Malvina desfiava o longo rosário de lagrimas verbais, entra o marido para o almoço, seguido pelos filhos, com alguns minutos de espaço.

A visitante, atordoada, sem mais delonga despediu-se e a residência dos Torres converteu-se num purgatório de imprecações. O chefe da casa insurgia-se contra os políticos, contra os acionistas da empresa a que se ligara, reclamava quanto ao pão malfeito e condenava o guardanapo mal-posto, fazendo larga ostentação de autoridade, ao passo que os filhos lhe copiavam os gestos, excedendo-se em afirmações leviana ou insensatas.

Dona Malvina, no centro daquele desvairado parlamento doméstico, enxugava os olhos inchados de chorar, proclamando-se a mais infeliz das mulheres.

Por duas horas consecutivas, ali esteve Ezequiel, observando discussões e reclamações.

O grupo não encontrava um minuto sequer para conversar edificando.

Aquela meia dúzia de corações reunidos semelhava-se a um poço de águas envenenadas, expelindo lodo pelas bordas.

Fundamente consternado, o benfeitor dirigiu-se a Antonio, com amarga inflexão:

- É lastimável identificar a atitude de nossos velhos amigos. Infelizmente, não sabem receber o concurso da amizade reconhecida. Não dispõem de suficiente educação para registra as manifestações de nossa ternura. A beneficio de todos, porem, ficarão a sós, por algumas semanas...

Antes que o mentor concluísse, perguntou Antonio, espantado:

- Que diz? Deixaremos Torres sem assistência? Que será dessa pobre família?

- Não aplicaremos remédio violento – elucidou Ezequiel, convencido -; a proteção aos companheiros na carne é análoga à que se dá às plantas. De quando em quando, é preciso retirar, mudar ou renovar. Malvina, João e os filhos permanecerão sem escoras, durante trinta dias; você virá comigo para descansar, em férias, e verificaremos o proveito de semelhante medida. Creio que nesse pouco tempo fará Malvina intensivo curso de entendimento, serviço, gratidão e prece. Nossa amiga tem recebido até hoje a proteção confortadora, mas, doravante, necessita receber a proteção educativa.

O programa traçado foi cumprido integralmente.

A breve trecho, a casa dos Torres experimentou enorme alteração.

Tão logo se ausentou Antonio, o silencioso amigo oculto, o desespero ali atingiu a culminância.

Os filhos do casal, no dia imediato ao do afastamento dele, se empenharam em luta corporal, no repasto da tarde, e Oscar teve o braço direito quebrado, recorrendo à intervenção médica. No terceiro dia, Hermenegildo foi dispensado do trabalho, por insubordinação. No quarto, José foi conduzido à Santa Casa em vista de inesperada apendicite com supuração. No quinto dia, o chefe da família foi atropelado por automóvel, ao sair do escritório, sendo transportado ao Pronto-Socorro e, no sexto dia, Paulo era trazido para casa, em carro da Assistência Municipal, em razão de queda espetacular no serviço.

Dona Malvina não encontrou mais tempo para se queixar do mundo e da sorte, e, findos os trinta dias do programa, quanto Ezequiel e Antônio lhe penetraram, de novo, o domicílio, encontraram-na em oração, profundamente transformada."
("Pontos e Contos", Irmão X/Francisco Cândido Xavier)

domingo, 19 de dezembro de 2010

"NATAL..."

"Diante do bolo iluminado, abraças, feliz, os entes amados que chegaram de
longe...
Ouves a música festiva que passa, de leve, por moldura de harmonia às telas
da natureza... Entretanto, quando penetrarem o tempo da oração, reverenciando o
Mestre que dizes amar, mentaliza o estábulo pobre.
Ignoramos de que estrela chegando o Sublime Renovador, mas todos sabemos
em que ponto da Terra começou ele o apostolado divino.
Recorda as mãos fatigadas dos tratadores de animais, os dedos calosos dos
homens do campo, o carinho das mulheres simples que lhes ofertaram as primeiras
gotas do próprio leite e o sorriso ingênuo dos meninos descalços que lhe recebera, do
olhar a primeira nota de esperança.
Lembra-te do Senhor, renunciando aos caminhos constelados de luz para
acolher-se, junto dos corações humildes que o esperavam, dentro da noite, e desce
também da própria alegria, para ajudar no vale dos que padecem...
Contemplará, de alma surpresa, a fila dos que se arrastam, de olhos
enceguecidos pela garoa das lágrimas. Ladeando velhinhos que tossem ao desabrigo,
há doentes e mutilados que suspiram pelo lençol de refúgio na terra seca. Surgem
mães infelizes que te mostram filhinhos nus e crianças desajustadas para quem o pão
farto nunca chegou. Trabalhadores cansados falam de abandono e jovens subnutridos
se referem ao consolo da morte...
Divide, porém, com eles o tesouro de teu conforto e de tua fé e, nos recintos de
palha e sombra a que te acolhes, encontrarás o Cristo no coração, transfigurando-te a
vida, ao mesmo tempo em que, nos escaninhos da própria mente, escutarás, de novo,
o cântico do Natal, como que repetido na pauta dos astros:
- Glória a Deus nas alturas e boa vontade para com os homens!..."
(Meimei,
 "Antologia Mediúnica do Natal",
Espíritos Diversos/Francisco Cândido Xavier)

"MESTRE E APRENDIZ"

"... E respondendo ao discípulo que lhe pedira ensinasse a orar, disse o Mestre
generoso:
Quando rogares amor, não abandones o próximo ao frio da indiferença.
Quando suplicares o dom da fé viva, não relegues teu irmão à descrença ou à
tortura mental.
Quando pedires luz, não condenes teu companheiro à perturbação nas trevas.
Quando solicitares a bênção da esperança, não espalhes o fel da desilusão.
Quando implorares socorro, não olvides a assistência que deves aos mais
necessitados.
Quando rogares consolação, não veicules o desespero à margem do caminho.
Quando pedires perdão, desculpa os que te ofendem.
Quando suplicares justiça, em favor da própria segurança, não te descuides da
harmonia de todos que precisas assegurar ao preço de tua renunciação e de tua
humildade, a benefício dos que te cercam.
Se reclamares pela claridade da paz, não entendas a sombra da discórdia; se
pedires compreensão, não critiques; se aguardares concurso do Céu, não
menosprezes a colaboração que o mundo te pede à boa vontade.
Assim como fizeres aos outros, assim será feito a ti mesmo.
Segundo plantares, colherás.
Não olvides, assim, que a Vontade do Senhor é também a Lei Eterna e que tudo
te responderá na vida, conforme os teus próprios apelos.
Vai, pois, e, orando, perdoa e ajuda sempre!...
Foi então que o aprendiz, reconhecendo que não basta simplesmente pedir para
receber a felicidade, passou a construí-la através do serviço à felicidade dos outros,
compreendendo, por fim, que somente pelo trabalho incessante no bem poderia
orar em perfeita comunhão com a Bondade de Deus."
(Emmanuel,
"Antologia Mediúnica do Natal",
Espíritos Diversos/Francisco Cândido Xavier)

"ANTE JESUS"

"Eis que passa no tempo a imensa caravana –
A multidão revel que humilhada se agita –
Reis, tiranos e heróis, rondando a turba aflita
e fugindo à verdade augusta e soberana.
Sobre carros triunfais, a Treva se engalana...
E a mendaz ilusão freme, goza e palpita
para rojar-se, após a miséria infinita,
na cinza a que se acolhe a majestade humana.
Mas Tu, Mestre da Paz, que a bondade ilumina,
guardas, imorredoura, a grandeza divina,
sem que o lodo abismal Te ofenda ou desconforte.
Tudo passa, descendo à sombra do caminho,
mas no sólio da cruz inda imperas sozinho,
na vitória do amor que fulge além da morte."
(Amaral Ornellas,
 "Antologia Mediúnica do Natal",
Espíritos Diversos/Francisco Cândido Xavier)

sábado, 18 de dezembro de 2010

"TORRENTE DE MERCÊS"

"Na densa treva um fio de prata se ergue do vale e cintila como uma
estrela na escumilha da noite, ao longe, ao alto...
Frângeas de argêntea claridade tremeluzem e caem numa explosão de gotas
luminescentes que pirilampeiam em a Natureza, a vestir-se de diamantes
fosforescentes...
Alguém ora, levantando-se da Terra em súplica aos Céus complacentes. As
Augustas Fontes do amor respondem ao vagido da prece com uma sinfonia de
bênçãos.
A criatura grita em ansiosa agonia ao Pai Criador, sufocando o desespero
no veludo macio e forte da oração, enquanto o Excelso Genitor responde à
alma, inspirando-a e afagando-a com intangíveis mãos que a penetram de
sublime luz, a fim de que se apaguem as sombras aflitivas.
Festa no coração!
O homem ora. Deus o abençoa."
(“No longe do jardim”, Eros/Divaldo P. Franco)

"Não consiste..."


"Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelirdes 
os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem. Basta reporteis todos 
os atos da vossa vida ao Criador que vo-la deu; basta que, quando começardes ou 
acabardes uma obra, eleveis o pensamento a esse Criador e lhe peçais, num 
arroubo d'alma, ou a sua proteção para que obtenhais êxito, ou a sua bênção para 
ela, se a concluístes. Em tudo o que fizerdes, remontai à Fonte de todas as 
coisas, para que nenhuma de vossas ações deixe de ser purificada e santificada 
pela lembrança de Deus."
("O Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec,
Capítulo 17 - "Sede Perfeitos")