segunda-feira, 7 de novembro de 2016

"TODOS OS SANTOS"




(Paris, 1º de novembro de1862 - médium: Sr. Perchet, sargento do 40º de linha, Caserna do Príncipe Eugênio; membro da Sociedade de Paris)

 
       "Meu caro irmão, neste dia de comemoração dos mortos, sinto-me feliz por poder entreter-me contigo. Não imaginas como é grande o prazer que experimento. Chama-me, pois, com mais frequência, e ambos lucraremos.
       Aqui nem sempre posso vir a ti, porque muitas vezes estou junto às minhas irmãs, especialmente junto à minha filhinha, que quase não deixo, pois pedi a missão de ficar junto a ela. Não obstante, posso com frequência responder ao teu chamado e será sempre uma felicidade ajudar-te com meus conselhos.
       Falemos da festa de hoje. Nesta solenidade cheia de recolhimento, que aproxima o mundo visível do invisível, há felicidade e tristeza.
       Felicidade, porque une em piedoso sentimento os membros dispersos da família. Neste dia a criança vem junto ao seu túmulo encontrar sua terna mãe, que molha a pedra sepulcral com suas lágrimas. O anjinho a abençoa e mistura seus votos aos pensamentos que caem, gota a gota, com as lágrimas da mãe querida. Como são doces ao Senhor essas castas preces, temperadas na fé e na saudade! Assim, subam aos pés do Eterno, como o suave perfume das flores e, do alto do Céu, Deus lance um olhar de misericórdia sobre este pequeno recanto da Terra e envie um de seus bons Espíritos para consolar esta alma sofredora e lhe dizer: “Consolai-vos, boa mãe. Vosso filho querido está na mansão dos bem-aventurados, vos ama e vos espera.”
       Eu disse: dia de felicidade, e o repito, porque aqueles a quem a religião da saudade aqui leva a orar pelos que se foram, sabem que não é em vão, e que um dia irão rever os seres amados, dos quais se acham momentaneamente separados. Dia de felicidade, porque os Espíritos veem com alegria e ternura aqueles que lhes são caros merecerem, pela confiança em Deus, vir em breve participar da felicidade de que desfrutam.
       Nesse dia de Todos os Santos, os mortos que corajosamente sofreram todas as provas impostas em vida, que se despojaram das coisas mundanas e educaram os filhos na fé e na caridade, esses Espíritos, repito, de boa vontade vêm associar-se às preces dos que deixaram, e lhes inspiram a firme vontade de marchar com perseverança pelo caminho do bem. Crianças, pais ou amigos, ajoelhados junto aos túmulos, experimentam íntima satisfação, porque têm consciência que os restos que lá estão, sob a lápide, não passam de uma lembrança do ser que eles encerraram e que agora se acha liberto das misérias terrenas.
       Meu caro irmão, esses são os felizes. Até amanhã.

II

 
       Meu caro irmão, fiel à minha promessa, venho a ti. Como havia dito ao deixar-te, ontem à noite, fui fazer uma visita ao cemitério. Lá examinei atentamente os vários Espíritos sofredores. Eles causam pena. Esse espetáculo chocante arrancaria lágrimas do mais duro coração.
       Contudo, em grande número essas almas são aliviadas pelos vivos e pela assistência dos bons Espíritos, principalmente quando se arrependeram das faltas terrenas e fazem esforços por se despojarem de suas imperfeições, causa única de seus sofrimentos. Agora eles compreendem a sabedoria, a bondade, a grandeza de Deus, e pedem o favor de novas provas para satisfazerem à justiça divina, expiar e reparar suas faltas e conquistar um futuro melhor.
       Orai, pois, caros amigos, de todo o vosso coração, por esses Espíritos arrependidos que acabam de ser esclarecidos por uma centelha de luz. Até agora eles não haviam acreditado nas delícias eternas porque, em sua punição, o cúmulo do tormento era não poderem esperar. Julgai sua alegria quando se rompeu o véu das trevas e o anjo do Senhor lhes abriu os olhos feridos de cegueira à luz da fé.
       Eles são felizes, entretanto, em geral não têm ilusões quanto ao futuro. Muitos dentre eles sabem que devem sofrer terríveis provas. Assim, reclamam insistentemente as preces dos vivos e a assistência dos bons Espíritos, a fim de poderem suportar com resignação a tarefa difícil que lhes será imposta.
       Digo-vos, ainda, e nunca seria demasiado repeti-lo para bem vos convencer desta grande verdade: Orai do fundo do coração por todos os Espíritos que sofrem, sem distinção de casta ou seita, porque todos os homens são irmãos e se devem mútuo auxílio.
       Espíritas fervorosos, sobretudo vós, que conheceis a situação dos Espíritos sofredores e sabeis apreciar as fases da vida; vós, que conheceis as dificuldades que eles têm a vencer, vinde em seu auxílio. É uma bela caridade orar pelos pobres irmãos desconhecidos, muitas vezes por todos esquecidos, e cujo reconhecimento não sabeis avaliar, quando se veem assistidos. A prece é para eles o que o orvalho é para a terra calcinada pelo calor.
       Figurai um desconhecido, caído em qualquer obscuro desvio de um caminho, em noite escura. Seus pés estão feridos pela longa caminhada. Ele sente o aguilhão da fome e uma sede ardente. Aos sofrimentos físicos juntam-se todas as torturas morais. O desespero está a dois passos. Em vão ele solta gritos dilacerantes aos quatro ventos, mas nenhum eco amigo responde ao apelo desesperado.
       Então! Imaginai que no instante em que essa infeliz criatura chegou aos extremos do sofrimento, mão compassiva vem pousar suavemente em seu ombro e lhe trazer o socorro que sua situação reclama. Imaginai, antão, se possível, o contentamento desse homem, e tereis uma pálida ideia da felicidade dada pela prece aos Espíritos infelizes, que suportam a angústia da punição e do isolamento. Eles vos serão eternamente agradecidos porque, tende certeza, no mundo dos Espíritos não há ingratos como na vossa Terra.
       Eu disse que Todos os Santos é uma solenidade surgida da tristeza, realmente uma grande tristeza, pois também chama a atenção para a classe desses Espíritos que, na existência terrena, se votaram ao materialismo, ao egoísmo; que não quiseram reconhecer outros deuses senão as miseráveis vaidades de seu mundo ínfimo; que não temeram empregar todos os meios ilícitos para aumentar suas riquezas e muitas vezes jogar gente honesta na miséria. Entre esses se acham os que interromperam a existência por uma morte violenta, bem como aqueles que durante sua vida arrastaram-se na lama da impureza.
       Meu caro irmão, que horríveis tormentos para todos esses! É exatamente como diz a Escritura: “Haverá choro e ranger de dentes”. Eles serão mergulhados no abismo profundo das trevas. Esses infelizes são vulgarmente chamados os danados e, posto seja mais exato chamá-los os punidos, nem por isso sofrem menos as terríveis torturas que se atribuem aos danados em meio às chamas. Envoltos nas mais espessas trevas de um abismo que lhes parece insondável, posto não seja circunscrito, como vos ensinam, experimentam sofrimentos morais indescritíveis, até abrirem o coração ao arrependimento.
       Alguns, por vezes, ficam durante séculos nesse estado, sem poderem prever o fim de seus tormentos, Assim, eles se dizem condenados por toda a eternidade. Essa opinião errônea, durante muito tempo encontrou guarida entre vós. É um erro grave, porque, mais cedo ou mais tarde, esses Espíritos se abrem ao arrependimento e então, Deus, apiedado de suas desgraças, lhes envia um anjo que lhes dirige palavras consoladoras e lhes abre um caminho tanto mais largo quanto mais tiverem para ele sido feitas preces aos pés do Eterno.
       Irmão, vês que as preces são sempre úteis aos culpados, e se elas não alteram os desígnios imutáveis de Deus, nem por isso dão menos alívio aos Espíritos sofredores, trazendo-lhes o suave pensamento de ainda se acharem na lembrança de almas piedosas. Assim, o prisioneiro sente o coração pular de alegria quando, através de suas tristes grades, percebe o rosto de algum parente ou amigo que não esqueceu sua desgraça.
       Se o Espírito sofredor for muito endurecido, muito material, para que a prece lhe atinja a alma, um Espírito puro a recolhe como um aroma precioso e a deposita nas ânforas celestes, até o dia em que elas puderem servir ao culpado.
       Para que a prece dê frutos, não basta balbuciar as palavras, como faz a maioria das criaturas. A única prece agradável ao Senhor é a que parte do coração, a única que é considerada, e que alivia os Espíritos sofredores.
       De tua irmã que te ama,
      
       Marguerite 

         Pergunta (feita na Sociedade):

       Que pensar da seguinte passagem desta comunicação, onde foi dito: “Eu vos asseguro que em nosso mundo não há ingratos como na vossa Terra?” Sendo as almas dos homens Espíritos encarnados, trazem consigo seus vícios e suas virtudes. As imperfeições dos homens vêm das imperfeições do Espírito, como suas qualidades vêm das qualidades adquiridas. Segundo essa ideia, e considerando-se que se encontram nos Espíritos os mais ignóbeis vícios, não se compreenderia que não se pudesse encontrar a ingratidão que frequentemente se encontra na Terra.

       Resposta (por intermédio do Sr. Perchet):

       Sem dúvida, há ingratos no mundo dos Espíritos, e podeis colocar em primeiro plano os obsessores e os maldosos, que fazem todos seus esforços por vos inculcar seus pensamentos perversos, a despeito do bem que lhes façais, orando por eles. Sua ingratidão, entretanto, é apenas momentânea, porque a hora do arrependimento soa para eles, mais cedo ou mais tarde. Então seus olhos se abrem à luz e seus corações também se abrem para sempre ao reconhecimento. Na Terra não é assim, e a cada passo encontrareis homens que, malgrado todo o bem que lhes façais, não pagam, até o fim, senão com a mais escura ingratidão.
       A passagem que provocou essa observação não é obscura senão porque lhe falta extensão. Eu só encarava a questão do ponto de vista dos Espíritos abertos ao arrependimento, e aptos, por isso mesmo, a recolher imediatamente os frutos da prece. Estando esses Espíritos comprometidos com boa via, e não podendo o Espírito retrogradar, é claro que neles não poderia extinguir-se o reconhecimento.
       Para não haver confusão, redigirei assim a frase que suscitou a observação: “Eles vos serão eternamente reconhecidos porque, tende certeza, entre os Espíritos, aqueles a quem tiverdes levado ao bom caminho não poderiam ser ingratos”.

Marguerite

 
       OBSERVAÇÃO: Estas duas comunicações, como muitas outras de moralidade não menos elevada, foram obtidas pelo Sr. Perchet em sua caserna, onde ele conta com vários camaradas que partilham de suas crenças espíritas e a estas conformam sua conduta. Perguntaremos aos detratores do Espiritismo se esses militares receberiam melhores conselhos de moral no cabaré. Se aí está a linguagem de Satã, ele se fez eremita. É verdade que ele está muito velho!
         Aproveitando o ensejo, perguntaremos ao Sr. Tony, o espirituoso e sobretudo muito lógico jornalista de Rochefort, que acredita que o Espiritismo é um dos males saídos da caixa de Pandora e uma dessas coisas malsãs estudadas pela higiene pública e a moral, nós lhe perguntaremos, íamos dizendo, o que há de malsão e de contrário à higiene nessa comunicação, e se esses militares perderam a moralidade e a saúde, ao renunciarem aos maus lugares em favor da prece."
("Revista Espírita" , Dezembro de1862)

domingo, 6 de novembro de 2016

"O SEXO"


       "Face à vulgarização das falsas necessidades sexuais, aturdes-te, perdendo o rumo do comportamento.
       Apelos vis se apresentam nos veículos de comunicação de massa, e os comentários descem a expressões chulas, regadas de baixezas, fazendo do sexo um instrumento de servilismo que o leva à situação mais grotesca do que a animal, de onde procede.
       Até certo modo, é compreensível a moderna reação cultural, a esse respeito, como consequência aos séculos de ignorância e proibição. Todavia, substituir-lhe a função precípua pela malversação danosa, é lamentável para o próprio homem.
       O sexo é para a vida, e não esta para aquele.
*
       Diante das atitudes insensatas e as conotações servis a que está levada a função genésica, dirige-a, tu, com equilíbrio, a fim de que o seu desregramento não te conduza à alucinação.
       O sexo foi colocado abaixo do cérebro para ser por este conduzido.
       Posto na cabeça pela revolução dos frustrados, ei-lo transformado em peça principal do corpo, em detrimento da própria vida.
       Conduze-o com equilíbrio, a fim de que não derrapes na sofreguidão que enlouquece, sem resolver o problema."
(“Episódios diários”, Joanna de Ângelis/Divaldo Pereira Franco)

sábado, 5 de novembro de 2016

"MAMÃE, AQUI ESTOU"



 
   "A Sra... havia perdido, meses antes, a filha única, de catorze anos, objeto de toda a sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade. Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia incessantemente que em breve iria reunir-se à filha. Informada da possibilidade de se comunicar com os seres de além-túmulo, a Sra... resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium, mas pouco afeitas uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos apenas três: a mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão.

       A mãe: Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.
       Júlia: Mamãe, aqui estou!

       A mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?
Júlia: Lili.
(Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem a médium o sabia, nem eu, pois há muitos anos só a chamam Júlia. Com este sinal, a identidade era evidente. Não podendo dominar sua emoção, a mãe rompeu em soluços).
       Júlia: Mãe, por que te afliges? Sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.

       A mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?
       Júlia: Aqui ao teu lado, com a minha mão sobre a Sra. X (a médium) para que escreva o que te digo. Vê a minha letra (a letra era realmente a da moça).

       A mãe: Dizes: minha mão. Então tens corpo?
       Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer, mas tenho a sua aparência. Não estás contente porque não sofro mais e porque posso conversar contigo?

       A mãe: Se eu te visse, te reconheceria, então?
       Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.

       A mãe: Com efeito eu te revi nos meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação, uma lembrança.
       Júlia: Não. Sou eu mesma que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a ideia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. Z... Ele não é sincero.
(Esse senhor, conhecido apenas da mãe, citado assim espontaneamente, era uma nova prova de identidade do Espírito que se manifestava).

       A mãe: Que pode fazer contra mim o Sr. Z…?
       Júlia: Não te posso dizer. Isto me é vedado. Posso apenas te advertir que desconfies dele.

       A mãe: Estás entre os anjos?
       Júlia: Oh! ainda não. Não sou bastante perfeita.

       A mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito. Eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?
       Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas agora vejo o que me falta para ser perfeita.

       A mãe: Como adquirirás essas qualidades que te faltam?
       Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.

       A mãe: É na Terra que terás novas existências?
       Júlia: Nada sei a respeito.

       A mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, por que sofreste tanto?
       Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!

      Ante fatos como este, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre elas não há mais separação; suas almas se confundem e se expandem na intimidade espiritual, pela troca de seus pensamentos.
     Apesar da discrição em que envolvemos este relato, não o teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam todos quantos perderam suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento!
      Acrescentaremos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntaremos como poderiam provar que o Espírito desta jovem era um demônio malfazejo!"

 
("Revista Espírita", Janeiro de 1858)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"PRESENÇA DO EGOÍSMO"

"No fundo das desgraças humanas o egoísmo sempre aparece como causa essencial.
Urde a agressividade e inspira a fuga ao dever sob disfarces inescrupulosos com que passa ignorado.
Remanescente das paixões que predominam em a natureza animal, vige com vigor logrando triunfos de mentira com que não consegue saciar a sede dos gozos nem organizar o bastião de segurança em que busca apoio para a sistemática auto-defesa.
Examinemo-lo em algumas nuances.
O mentiroso acredita que se exime à responsabilidade do cometimento que oculta e não raro avança no rumo da infâmia ou da calúnia logo a oportunidade se lhe faça propícia.
O egoísmo é-lhe o nefando inspirador.
O perseguidor crê-se amparado pela necessidade do desforço justo ou que procura justificar, transformando-se em implacável algoz.
O egoísmo sustenta-o na empresa inditosa.
O sensualista perverte o próximo, desrespeitando a honestidade das vítimas que lhe caem nas armadilhas.
O egoísmo absorvente emula-o ao desar contínuo.
O avaro amealha com sofreguidão cobrando à sociedade um tributo absurdo, devorando os bens alheios e permitindo-se devorar pela sandice.
O egoísmo faz-se-lhe a força que o propele na infeliz tarefa.
O assaltante de qualquer denominação apropria indebitamente utilizando-se subrepticiamente da astúcia, da temeridade, do cinismo, da loucura.
O egoísmo domina-o feroz.
O misantropo arroga-se direitos na infelicidade que se impõe e exerce enérgico domínio em torno dos próprios passos com que não amaina a melancolia em que se compraz.
O egoísmo concita-o à lamentável situação.
O vício de qualquer tipo exercendo dominação sobre o homem, sem facultar a outrem qualquer ensancha de prazer.
Crê-se merecedor de tudo e a si mesmo se concede somente direitos e permissividades.
Morbo pestilencial, no entanto. consome aquele que o agasalha e o vitaliza.
Destrói em volta, sem embargo aniqüila-se.
O conhecimento da vida espiritual constitui o antídoto eficaz a tão violento quão generalizado mal: o egoísmo.
Descarta-te de excessos e, disposto a vencê-lo, distribui o que te seja também necessário.
Não é uma conclamação à imprevidência, tão-pouco apoio à avareza.
Imprescindível combater por todos os modos possíveis esse adversário que se assenhoreia da alma e lhe estrangula as possibilidades de libertação.
Ama e espraia-te.
Desculpa e cresce na fraternidade.
Serve e desdobra a esperança.
Ora e dilata os valores da iluminação espiritual, clarificando mentes e corações no propósito excelente de vencer em definitivo esse verdugo que tem sido a matriz de todos os males que pesam na economia moral, social e espiritual da Humanidade."
("Leis Morais da Vida", Joanna de Ângelis/Divaldo Franco)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"MENSAGEM DE ALERTA"

"Com instruções dos benfeitores Espirituais para a organização de um novo livro de anotações e ensinamentos, o Grupo Meimei, ao término dos serviços da noite, começou a recolher, como de hábito, através da mediunidade do companheiro Francisco Cândido Xavier, o material destinado a esse fim, com a visita do respeitável instrutor Antônio Luiz Sayão, inolvidável pioneiro do Espiritismo no Brasil, que pronunciou a comovente mensagem que se segue, alusiva às nossas necessidades de vigilância.
Irmãos:
Permaneçamos na paz de Nosso Senhor Jesus.
O acicate das provações necessárias fere o mundo.
O avanço da inteligência moderna mais se assemelha a rude sarcasmo, tributando a Civilização com vexames e calamidades de toda espécie.
O homem, efetivamente, multiplicou os poderes da máquina que lhe soluciona variados problemas da luta material, mas sofre o escárnio desse avanço, visto que o imenso progresso industrial, que lhe assinala a experiência de agora, mais lhe destaca a miserabilidade do espírito, acelerando-lhe a corrida para os desastres e crises de toda ordem.
Registrando o apontamento, não temos o gosto de manejar a picareta derrotista, nem somos profetas do pessimismo ou da decadência.
Compreendemos o sofrimento individual e coletivo como imposição natural e justa de que não nos é lícito escapar, tanto quanto, na existência comum, ninguém foge ao serviço da limpeza, se pretende evoluir ou preservar-se.
Não há tempestade sem benefício, como não existe noite sem alvorada.
Desejamos apenas comentar com os nossos irmãos de fé a necessidade de mais ampla assimilação do Evangelho em nossas linhas de atividade.
O título de espírita, atualmente, vale por cristão redivivo, envolvendo a inadiável obrigação de socorro ao mundo.
E todos nós, que já recebemos, por mercê do Senhor, o conhecimento da Justiça Divina, através da reencarnação, e a certeza da imortalidade da alma, constituímos, em nome do Mestre, vasta frente de servidores com o dever de ajudar a Humanidade que se debate no caos.
Para que estejamos, porém, investidos do poder que semelhante mandato nos faculta, é indispensável, não apenas pregar o evangelho, mas incorporá-lo a nós mesmos, para que a nossa vida fale mais alto que as nossas palavras.
Nas vastidões obscuras das esferas inferiores, choram os soldados que perderam inadvertidamente a oportunidade da vitória. São aqueles companheiros nossos que transitaram no luminoso carreiro da Doutrina, exigindo baixasse o Céu até eles, sem coragem para o sacrifício de se elevarem até o Céu. Permutando valores eternos pelo prato de lentilhas da facilidade humana, precipitaram-se no velho rochedo da desilusão, a que se prendem pelo desespero e pelo arrependimento tardio.
E o grande conflito entre o bem e o mal continua fragoroso e terrível, concitando-nos à humildade e ao trabalho, ao amor e à renúncia.
Espíritas, irmãos de ideal, se quiserdes o triunfo nas promessas que assinastes Mais Alto, antes de empreenderdes a presente romagem no mundo, é preciso acordar para as responsabilidades de viver e de crer, lutando destemerosamente na regeneração de nós mesmos e no soerguimento moral da Terra! Guardemos a provação por bênção, o trabalho por alimento espiritual de cada dia, o obstáculo por medida de nossa confiança, a fé por nosso incessante estímulo e a consciência tranqüila por nosso melhor galardão.
A batalha neste século é decisiva para nós, espiritistas e servidores da Boa-Nova, quinhoados com a riqueza do conhecimento renovador! Aceitaremos o Cristo, libertando-nos definitivamente das trevas, ou permaneceremos nas trevas, adiando indefinidamente a nossa libertação com o Cristo.
Que Nossa Mãe Santíssima nos proteja e nos abençoe."

("Vozes do Grande Além", António Luiz Sayão/Francisco Cândido Xavier)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

"DESENVOLVIMENTO DA MEDIUNIDADE"

"Desenvolver a mediunidade é aprender a usá-la. Antes de tudo, devemos
procurar um Centro Espírita que, por indicação de espíritas conhecedores
da doutrina mereça nossa confiança; aí, sob a orientação prudente do
diretor dos trabalhos, iniciaremos o nosso desenvolvimento. Não
desenvolvamos nossa mediunidade em sessões espíritas particulares ou
familiares, como são também chamadas; estas sessões quando não dirigidas
por pessoas de seguro conhecimento doutrinário, quase sempre constituem
terríveis focos de obsessão. É conveniente que iniciemos e terminemos
nosso desenvolvimento num mesmo Centro; depois de bem desenvolvidos,
podemos ir trabalhar em outro Centro. Só façamos nossos exercícios
mediúnicos no Centro e nos dias para isso designados; nunca em casa; fora
do Centro não nos preocupemos com nossos trabalhos espirituais.
Para que sejamos bem sucedidos, cultivaremos as seguintes virtudes: a
paciência, a perseverança, a boa vontade, a humildade e a sinceridade.
Paciência; a mediunidade não se desenvolve de um dia para outro;
geralmente, gastam-se meses e mesmo anos. Ninguém pode marcar um
limite de tempo dentro do qual se processe o completo desenvolvimento.
Há médiuns que se desenvolvem em algumas semanas, outros em meses e
outros levam anos. Não nos impacientemos; não façamos conta do tempo;
nosso único interesse é que nossa mediunidade seja bem desenvolvida; e
para isso tenhamos muita paciência.
Sem perseverança nada se alcança. O desenvolvimento da mediunidade
exige que sejamos persistentes. Marquemos uma noite certa por semana
para os nossos trabalhos mediúnicos e, aconteça o que acontecer, não
faltemos à reunião. Uma mediunidade bem desenvolvida é fruto da
perseverança.
À paciência e à perseverança ajuntaremos a boa vontade. Ter boa vontade é
comparecermos alegres e cheios de satisfação às sessões. É esforçarmo-nos
o mais possível durante os momentos consagrados ao nosso
desenvolvimento.
A humildade é a virtude pela qual reconhecemos que tudo vem de Deus,
nosso Pai, e nós, por nós mesmos, nada podemos fazer. Por isso, nunca nos
orgulhemos de nossa mediunidade, por mais prodigiosa que ela pareça ser.
Deus ama os humildes e abate os orgulhosos. Para merecermos que Deus
consinta que bons espíritos nos auxiliem, cultivemos a humildade. Para
sermos humildes devemos ser bondosos para com todos, porque a bondade
é a mais bela forma da humildade. E para adquirirmos essa virtude,
nutramos o ardente desejo de sermos realmente úteis e bons.
Sinceridade; o médium sincero é aquele que transmite fielmente o que os
espíritos ditam, mesmo que a comunicação seja contrária ao seu modo de
pensar, ou seja uma admoestação a si mesmo. Se faltarmos com a
sinceridade no desempenho de nossas funções mediúnicas, cedo ou tarde
sofreremos decepções.
São estes os cinco pontos sobre os quais refletiremos profundamente e os
teremos sempre na memória; deles depende o bom ou o mau êxito de nossa
iniciação mediúnica."
("A mediunidade sem lágrimas", Eliseu Rigonatti)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"TENHAMOS FÉ"

"..vou preparar-vos lugar." - Jesus, (João, 14:2).

"Sabia o Mestre que, até à construção do Reino Divino na Terra,
quantos o acompanhassem viveriam na condição de desajustados,
trabalhando no progresso de todas as criaturas, todavia, "sem lugar"
adequado aos sublimes ideais que entesouram.
Efetivamente, o cristão leal, em toda parte, raramente recebe o
respeito que lhe é devido:
Por destoar, quase sempre, da coletividade, ainda não
completamente cristianizada, sofre a descaridosa opinião de muitos.
Se exercita a humildade, é tido à conta de covarde.
Se adota a vida simples, é acusado pelo delito de relaxamento.
Se busca ser bondoso, é categorizado por tolo.
Se administra dignamente, é julgado orgulhoso.
Se obedece quanto é justo, é considerado servil.
Se usa a tolerância, é visto por incompetente.
Se mobiliza a energia, é conhecido por cruel.
Se trabalha, devotado, é interpretado por vaidoso.
Se procura melhorar-se, assumindo responsabilidades no esforço
intensivo das boas obras ou das preleções consoladoras, 
é indicado por fingido.
Se tenta ajudar ao próximo, abeirando-se da multidão, com os seus
gestos de bondade espontânea, muitas vezes é tachado de
personalista e oportunista, atento aos interesses próprios.
Apesar de semelhantes conflitos, porém, prossigamos agindo e
servindo, em nome do Senhor.
Reconhecendo que o domicílio de seus seguidores não se ergue sobre
o chão do mundo, prometeu Jesus que lhes prepararia lugar na vida
mais alta.
Continuemos, pois, trabalhando com duplicado fervor na sementeira do bem, à maneira de servidores provisoriamente distanciados do
verdadeiro lar. 
"Há muitas moradas na Casa do Pai."
E o Cristo segue servindo, adiante de nós.
Tenhamos fé."


("Fonte Viva", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)