sábado, 7 de maio de 2016

"ASPECTOS DA DOR"

"Os soluços de dor são compreensíveis até o ponto em que não atingem a fermentação da revolta, porque, depois disso, se convertem todos eles em censura infeliz aos planos do Céu.
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A enfermidade jamais erra o endereço para suas visitas.
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As lágrimas, em verdade, são iguais às palavras. Nenhuma existe destituída de significação.
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Somente chega a entender a vida quem compreende a dor.
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A evolução regula também o sofrimento das criaturas e nelas se evidencia mais superficial ou mais profunda, conforme o aprimoramento de cada uma.
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Se você pretende vencer, não menospreze a possibilidade de amargar, algumas vezes, a aflição da derrota como lição no caminho para o triunfo.
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Aprende melhor quem aceita a escola da provação, porquanto, sem ela, os valores da experiência permaneceriam ignorados.
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A dor não provém de Deus, de vez que, segundo a Lei, ela é uma criação de quem a sofre."

("Estude e Viva", André Luiz/Waldo Vieira)



sexta-feira, 6 de maio de 2016

"DEUS"

"O Universo é obra inteligentíssima; obra que transcende a mais genial inteligência humana; e como todo efeito inteligente tem uma causa inteligente, é forçoso inferir que a do Universo é superior a toda inteligência; é a inteligência das inteligências; a causa das causas; a Lei das leis; o Princípio dos princípios; a Razão das razões; a Consciência das consciências; É DEUS! Nome mil vezes Santo que Newton jamais pronunciava sem se descobrir.

DEUS!
Vós que vos revelais pela natureza, vossa filha e nossa mãe, reconheço-vos eu, Senhor! Na poesia da Criação, na criança que sorri, no ancião que tropeça, no mendigo que implora, na mão que assiste, na mãe que vela, no pai que instrui, no apóstolo que evangeliza!

DEUS!
Reconheço-vos eu, Senhor! No amor da esposa, no afeto do filho, na estima da irmã, na justiça do justo, na misericórdia do indulgente, na fé do ímpio, na esperança dos povos, na caridade dos bons, na inteireza dos íntegros!

DEUS!
Reconheço-vos eu, Senhor! No estro do vate, na eloqüência do orador, na inspiração do artista, na santidade do moralista, na sabedoria do filósofo, nos fogos do gênio!

DEUS!
Reconheço-vos eu, Senhor! Na flor dos vergéis, na relva dos vales, no matiz dos campos, na brisa dos prados, no perfume das campinas, no murmúrio das fontes, no rumorejo das franças, na música dos bosques, na placidez dos lagos, na altivez dos montes, na amplidão dos oceanos, na majestade do firmamento!
DEUS!
Reconheço-vos eu, Senhor! Com Jesus, quando ora: "Pai nosso que estás nos céus..." ou com os anjos quando cantam: "Glória a Deus nas alturas... Aleluia!"
Reconheço-vos eu, Senhor! Nos lindos antélios, no íris multicolor, nas auroras polares, no argênteo da luz, no brilho do Sol, na fulgência das estrelas, no fulgor das constelações!

DEUS!
Reconheço-vos eu, Senhor! Na formação das nebulosas, na origem dos mundos, na gênese dos sóis, no berço das humanidades, na maravilha, no esplendor, no sublime do infinito!

DEUS!
Reconheço-vos eu, Senhor! Com Jesus, quando ora: "Pai nosso que estás nos céus..." ou com os anjos quando cantam: "Glória a Deus nas alturas... Aleluia!" 


(Eurípedes Barsanulfo, 18.01.1914)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

"PURIFICAÇÃO ÍNTIMA"

“Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações.” — (TIAGO, capítulo 4, versículo 8.) 

"Cada homem tem a vida exterior, conhecida e analisada pelos que o rodeiam, e a vida íntima da qual somente ele próprio poderá fornecer o testemunho. 

O mundo interior é a fonte de todos os princípios bons ou maus e todas as expressões exteriores guardam aí os seus fundamentos. 

Em regra geral, todos somos portadores de graves deficiências íntimas, necessitadas de retificação. 

Mas o trabalho de purificar não é tão simples quanto parece. 

Será muito fácil ao homem confessar a aceitação de verdades religiosas, operar a adesão verbal a ideologias edificantes... Outra coisa, porém, é realizar a obra da elevação de si mesmo, valendo-se da auto-disciplina, da compreensão fraternal e do espírito de sacrifício. 

O apóstolo Tiago entendia perfeitamente a gravidade do assunto e aconselhava aos discípulos alimpassem as mãos, isto é, retificassem as atividades do plano exterior, renovassem suas ações ao olhar de todos, apelando para que se efetuasse, igualmente, a purificação do sentimento, no recinto sagrado da consciência, apenas conhecido pelo aprendiz, na soledade indevassável de seus pensamentos. O companheiro valoroso do Cristo, contudo, não se esqueceu de afirmar que isso é trabalho para os de duplo ânimo, porque semelhante renovação jamais se fará tão-somente à custa de palavras brilhantes."
("Caminho, Verdade e Vida", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

"NÃO TE ENGANES"

"Olhais para as coisas, segundo as aparências? Se alguém confia de si mesmo que é do Cristo, pense outra vez isto consigo, que assim como ele é do Cristo, também nós do Cristo somos." - Paulo. (II Coríntios, 10:7).

"Não te enganes, acerca da nossa necessidade comum no aperfeiçoamento.
Muita vez, superestimando nossos valores, acreditamo-nos privilegiados 
na arte da elevação. E, em tais circunstâncias, costumamos esquecer, impensadamente, que outros estão fazendo 
pelo bem muito mais que nós mesmos.
O vaga-lume acende leves relâmpagos nas trevas e se supõe o príncipe da luz, mas encontra a vela acesa que o ofusca. A vela empavona-se sobre um móvel doméstico e se presume no trono absoluto da claridade, entretanto, lá vem um dia em que a lâmpada elétrica brilha no alto, embaciando-lhe a chama.
A lâmpada, a seu turno, ensoberbece-se na praça pública, mas o Sol,
cada manhã, resplandece no firmamento, clareando toda a Terra e
empalidecendo todas as luzes planetárias, grandes e pequenas.
Enquanto perdura a sombra protetora e educativa da carne, quase sempre somos vítimas de nossas ilusões, mas, em voltando o clarão infinito da 
verdade com a renovação da morte física, verificamos, ao sol da vida espiritual, que a Providência Divina é glorioso amor para a Humanidade inteira.
Não troques a realidade pelas aparências.
Respeitemos cada realização em seu tempo e cada pessoa no lugar
que lhe é devido.
Todos somos companheiros de evolução e aperfeiçoamento,
guardados ainda entre o bem e o mal.
Onde acionarmos a nossa "parte inferior", a sombra dos outros 
permanecerá em nossa companhia. Da zona a que projetarmos a nossa
"boa parte", a luz do próximo virá ao nosso encontro.
Cada alma é sempre uma incógnita para outra alma. 
Em razão disso, não será lícito erguer as paredes de nossa tranquilidade 
sobre os alicerces do sentimento alheio.
Não nos iludamos.
Retifiquemos em nós quanto prejudique a nossa paz íntima e
estendamos braços e pensamentos fraternos, em todas as direções,
na certeza de que, se somos portadores de virtudes e defeitos, nas
ocasiões de juízo receberemos sempre de acordo com as nossas obras. 
E, compreendendo que a Bondade do Senhor brilha para todas
as criaturas, sem distinção de pessoas, recordemos em nosso favor e
em favor dos outros as significativas palavras de Paulo: - "Se alguém
confia de si mesmo que é do Cristo, pense outra vez isto consigo, porque tanto quanto esse alguém é do Cristo, também nós do Cristo somos."


("Fonte Viva", Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)

terça-feira, 3 de maio de 2016

"COMÉRCIO E INTERCÂMBIO"

"O Comércio é também uma escola de fraternidade.
Realmente, carecemos de atenção do vendedor, 
mas o vendedor espera de nós a mesma atitude.
Diante de balconistas fatigados ou irritadiços, reflitamos nas provações que, indubitavelmente, os constrange nas retaguardas da família 
ou do lar, sem negar-lhes consideração e carinho.
A pessoa que se revela mal-humorada, em seus contatos públicos, provavelmente carrega um fardo pesado de inquietação e doença.
Abrir caminho, à força de encontrões, não é só deselegância, 
mas igualmente lastimável descortesia.
Dar passagem aos outros, em primeiro lugar, seja no elevador ou no coletivo, é uma forma de expressar entendimento e bondade humana.
Aprender a pedir um favor aos que trabalham em repartições, armazéns, lojas ou bares, é obrigação.
Evitar anedotário chulo ou depreciativo, reconhecendo-se que as palavras criam imagens e as imagens patrocinam ações.
Zombaria ou irritação complicam situações sem resolver os problemas.
Quando se sinta no dever de reclamar, não faça de seu verbo instrumento de agressão.
O erro ou o engano dos outros talvez fossem nossos se estivéssemos nas circunstâncias dos outros.
Afabilidade é caridade no trato pessoal."


("Sinal Verde, André Luiz/Francisco Cândido Xavier)

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"O REPOUSO"

"Nas respostas que deram às questões de ns. 682 e 684, formuladas por Kardec, nossos amigos espirituais nos esclarecem que “o repouso é uma lei da natureza, sendo uma necessidade para todo aquele que trabalha”, e mais: que “oprimir alguém com trabalho excessivo é uma das piores ações”, constituindose, mesmo, grave transgressão do Código Divino. 

Com efeito, o 4º mandamento preceitua: 

“Lembra-te do dia de sábado, para o santificares. Seis dias trabalharás e farás todas as tuas obras, mas o sétimo dia é o sábado, isto é, o dia de descanso do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o peregrino que vive de tuas portas para dentro.” 

Julgamos interessante elucidar, nesta oportunidade, que a substituição do repouso no sábado, como era observado entre os judeus, pelo domingo, como atualmente é de uso entre nós, carece de importância. Isso começou com os primeiros cristãos. Eles continuavam a frequentar as sinagogas aos sábados, mas, a par disso, tomaram o hábito de reunir-se também no primeiro dia da semana judaica (domingo), a fim de celebrarem a ressurreição de Jesus. Com o decorrer do tempo, foram deixando de comparecer às sinagogas e, consequentemente, apenas o domingo passou a ser observado por eles. 

Os que advogam a observância do sábado, talvez se apóiem nas razões anexas do referido mandamento, conforme o Êxodo: “Porque o Senhor fêz em seis dias o céu, a terra, o mar, e tudo o que neles há, e descansou no sétimo dia: por isso o Senhor abençoou o dia sétimo, e o santificou.” 

Sabe-se, agora, entretanto, que os seis “dias” da criação não foram dias de 24 horas, como alguns ainda. supõem, mas sim longos períodos milenares. Além disso, em Deuteronômio, as reflexões aduzidas para recomendar esse mandamento são outras, bem diferentes: “Para que descanse o teu escravo, e a tua escrava, como tu também descansas. Lembra-te de que também serviste no Egito, e que de lá te tirou o Senhor teu Deus.

” Como se vê, aqui não se alude ao sábado como sendo o dia em que o Criador teria descansado de Sua obra; apela-se, simplesmente, para os sentimentos de caridade dos judeus, para que, nesse dia, concedam o merecido descanso igualmente ao elemento servil, inclusive aos animais, porqüanto todos precisam de repouso para o refazimento de suas energias. 

O Decálogo, ninguém o ignora, baseia-se na lei natural, e a folga semanal não é mais que uma questão de higiene. 

Assim sendo, quer guardemos o sábado (sábado significa descanso), ou o domingo, o que importa é que o façamos segundo o espírito da Lei, e esta o que recomenda é que após seis dias de trabalho, dedicados ao provimento do indispensável ao nosso bem-estar corporal, reservemos pelo menos um dia para o repouso, consagrando-o ao cultivo dos valores espirituais. 

Isto, aliás, era o máximo que, naquela época, podia obter-se de homens embrutecidos e materializados cujos ideais se concentravam unicamente na conquista de bens terrenos e que, para consegui-los, não hesitavam em sobrecarregar familiares, servos e animais, obrigando-os a penosas jornadas de trabalho, de sol a sol, nos 365 dias do ano. 

Por incrível que pareça, muitos homens, em pleno século 20, dominados pela ambição, continuam a impor-se tal regime (estendendo-o a outrem, sempre que lhes permitam dar largas ao seu poder de mando), e ainda se jactam disso, como se fôssem heróis dignos dos maiores aplausos, quando, ao revés, só merecem lástima. 

Sim, porque hoje que a vida urbana se caracteriza por uma agitação contínua, exigindo-nos um gasto excessivo de energias físicas e mentais, a necessidade que todos temos de repousar periodicamente tornou-se. maior, e, daí, o estar-se generalizando a chamada “semana inglesa”, com cinco dias de trabalho e dois de descanso além das férias anuais, que lia alguns decênios já se Constitui um direito universal. 

Trabalhemos, pois, “até o limite de nossas forças”, já que o trabalho é uma bênção; cuidemos porém, de evitar a exaustão e a estafa, antes que esses males nos conduzam à neurastenia ou ao esgotamento nervoso."
("As Leis Morais", Rodoldo Calligaris)

domingo, 1 de maio de 2016

"CARTA A MINHA MÃE"

"Hoje, mamãe, eu não te escrevo daquele gabinete cheio de livros sábios, onde o teu filho, pobre e enfermo, via passar os espectros dos enigmas humanos junto da lâmpada que, aos poucos, lhe devorava os olhos, no silêncio da noite. 

A mão que me serve de porta-caneta é a mão cansada de um homem paupérrimo que trabalhou o dia inteiro, buscando o pão amargo e quotidiano dos que lutam e sofrem. A minha secretária é uma tripeça tosca à guisa de mesa e as paredes que se rodeiam são nuas e tristes como aquelas de nossa casa desconfortável em Pedra do Sal. O telhado sem forro deixa passar a ventania lamentosa da noite e deste remanso humilde onde a pobreza se esconde, exausta e desalentada, eu te escrevo sem insônias e sem fadigas para contar-te que ainda estou vivendo para amar e querer a mais nobre das mães. 

Queria voltar ao mundo que eu deixei para ser novamente teu filho, desejando fazer-me um menino, aprendendo a rezar com o teu espírito santificado nos sofrimentos. 

A saudade do teu afeto leva-me constantemente a essa Parnaíba das nossas recordações, cujas ruas arenosas, saturadas do vento salitroso do mar, sensibilizam a minha personalidade e dentro do crepúsculo estrelado de tua velhice, cheia de crença e de esperança, vou contigo, em espírito, nos retrospectos prodigiosos da imaginação, aos nossos tempos distantes. Vejo-te com os teus vestidos modestos em nossa casa da Miritiba, suportando com serenidade e devotamento os caprichos alegres de meu pai. Depois, faço a recapitulação dos teus dias de viuvez dolorosa junto da máquina de costura e do teu "terço" de orações, sacrificando a mocidade e a saúde pelos filhos, chorando com eles a orfandade que o destino lhe reservara e junto da figura gorda e risonha da Midoca ajoelho-me aos teus pés e repito: 

- Meu Senhor Jesus Cristo, se eu não tiver de ter uma boa sorte, levai-me deste mundo, dando-me uma boa morte. 

Muitas vezes, o destino te fez crer que partirias antes daqueles que havias nutrido com o beijo das tuas carícias, demandando os mundos ermos e frios da Morte. Mas partimos e tu ficaste. Ficaste no cadinho doloroso da Saudade, prolongando a esperança numa vida melhor no seio imenso da eternidade. E o culto dos filhos é o consolo suave do teu coração. Acariciando os teus netos, guardas com desvelo o meu cajueiro que aí ficou como um símbolo, plantado no coração da terra parnaibana e, carinhosamente, colhes das suas castanhas e das suas folhas fartas e verdes, para que as almas boas conservem uma lembrança do teu filho, arrebatado no turbilhão da Dor e da Morte. 

Ao Mirocles, mamãe, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de selva na carne moça da terra, pedi velasse pelos teus dias de isolamento e velhice, substituindo-me junto do teu coração. Todos os nossos te estendem as suas mãos bondosas e amigas e é assombrada que, hoje, ouves a minha voz, através das mensagens que tenho escrito para quantos me possam compreender. Sensibilizam-se as tuas lágrimas, quando passas os olhos cansados sobre as minhas páginas póstumas e procuro dissipar as dúvidas que torturam o teu coração, combalido nas lutas. Assalta-me o desejo de me encontrares, tocando-me com a generosa ternura de tuas mãos, lamentando as tuas vacilações e os teus escrúpulos, temendo aceitar as verdades espíritas em detrimento da fé católica que te vem sustentando nas provações. Mas não é preciso, mamãe, que me procures nas organizações espiritistas e para creres na sobrevivência do teu filho não é necessário que abandones os princípios da tua fé. Já não há mais tempo para que o teu espírito excursione em experiências no caminho vasto das filosofias religiosas. 

Numa de suas páginas, dizia Coelho Neto que as religiões são como as linguagens. Cada doutrina envia a Deus, a seu modo, o voto de sua súplica ou de sua 21 adoração. Muitas mentalidades entregam-se aí no mundo aos trabalhos da discussão. Chega porém um dia em que o homem acha melhor repousar na fé a que se habituou, nas suas meditações e nas suas lutas. Esse dia, mamãe, é o que estás vivendo, refugiada no conforto triste das lágrimas e das recordações. Ascendendo às culminâncias do teu Calvário de saudade e de angústia, fixas os teus olhos na celeste expressão do Crucificado, e Jesus que é a providência misericordiosa de todos os desamparados e de todos os tristes, te fala ao coração dos vinhos suaves e doces de Caná que se metamorfosearam no vinagre amargoso dos martírios e das palmas verdes de Jerusalém que se transformaram na pesada coroa de espinhos. A cruz então se te afigura mais leve e caminhas. Amigos devotados e carinhosos te enviam de longe o terno consolo dos seus afetos e prosseguindo no teu culto de amor aos filhos distantes, esperas que o Senhor com as suas mãos prestigiosas, venha decifrar para os teus olhos os grandes mistérios da Vida. 

Esperar e sofrer têm sido os dois grandes motivos em torno dos quais rodopiaram os teus quase setenta e cinco anos de provações, de viuvez e de orfandade.

 E eu, minha mãe, não estou mais aí para afagar-te as mãos trêmulas e os teus cabelos brancos que as dores santificaram. Não posso prover-te de pão e nem guardar te da fúria da tempestade, mas abraçando o teu espírito, sou a força que adquires na oração como se absorvesses um vinho misterioso e divino. 

Inquirido certa vez pelo grande Luís Gama sobre as necessidades de sua alforria, um jovem escravo lhe observou:

 "Não, meu senhor!. .. A liberdade que me oferece me doeria mais que o ferrete da escravidão, porque minha mãe, cansada e decrépita, ficaria sozinha nos martírios do cativeiro.

" Se Deus me perguntasse, mamãe, sobre os imperativos da minha emancipação espiritual, eu teria preferido ficar aí, não obstante a claridade apagada e triste dos meus olhos e hipertrofia que me transformava num monstro para levar-te o meu carinho e a minha afeição, até que pudéssemos partir juntos, desse mundo onde sonhamos tudo para nada alcançar. 

Mas se a Morte parte os grilhões frágeis do corpo, é impotente para dissolver as algemas inquebrantáveis do espírito. 

Deixa que o teu coração prossiga, oficiando no altar da saudade e da oração; cântaro divino e santificado, Deus colocará dentro dele o mel abençoado da esperança e da crença, e, um dia, no portal ignorado do mundo das sombras, eu virei, de mãos entrelaçadas com a Midoca, retrocedendo no tempo para nos transformarmos em tuas crianças bem-amadas. Seremos agasalhados então nos teus braços cariciosos como dois passarinhos minúsculos, ansiosos da doçura quente e doce das asas de sua mãe e guardaremos as nossas lágrimas nos cofres de Deus onde elas se cristalizam como as moedas fulgurantes e eternas do erário de todos os infelizes e desafortunados do mundo. 

- Tuas mãos segurarão ainda o "terço" das preces inesquecíveis e nos ensinarás, de joelhos, a implorar de mãos postas as bênçãos prestigiosas do Céu. E enquanto os teus lábios sussurrarem de mansinho - "Salve, Rainha...mãe de misericórdia...", começaremos juntos a viagem ditosa do Infinito sobre o dossel luminoso das nuvens claras, tênues e alegres do Amor."

("Mãe", Humberto de Campos/Francisco Cândido Xavier)